5. GERAL edio especial 45 anos set.2013

1. RELIGIO  42 MILHES DE PESSOAS
2. EDUCAO  MODELO REPROVADO
3. ANTROPOLOGIA  QUANDO OS NDIOS DEIXARAM DE SER SELVAGENS
4. SOCIEDADE  A FAMLIA VAI BEM, OBRIGADO
5. SOCIEDADE  MALU MULHER DE VERDADE
6. DEPOIMENTO  O SOL DA ANISTIA
7. DEPOIMENTO  ENFIM, O SEXO FORTE
8. TECNOLOGIA  O FIM CADA VEZ MAIS RPIDO
9. TECNOLOGIA  O MAC DA PERIFERIA ERA ASSIM
10. TECNOLOGIA  A TEIA SE EXPANDE
11. FUTEBOL  QUEM CHORA A PTRIA DE CHUTEIRAS?
12. SADE  UM DRAMA QUE NO VAI SE REPETIR
13. SADE  ACHAVA QUE NO PASSARIA DOS 30 ANOS
14. COMPORTAMENTO  AS DUAS FACES DA TOLERNCIA
15. AUTOMOBILISMO  UMA PROVA DE RISCO
16. CINCIA  A CLONAGEM NO ESPELHO
17. MEDICINA  ORGULHO AZUL
18. AMBIENTE  A CINCIA TEM A VERDADE

1. RELIGIO  42 MILHES DE PESSOAS
 esse o nmero de brasileiros que se declaram evanglicos. O crescimento obriga a Igreja Catlica do papa Francisco a recuperar sua vocao pastoral.

     Depois da dcada de 60, a Igreja nunca mais foi a mesma. O Conclio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, tornou-se um marco na modernizao litrgica e doutrinal do catolicismo. A partir dele, o uso da batina, por exemplo, deixou de ser obrigatrio e os leigos comearam a participar ativamente das missas. As drsticas mudanas estimularam duas linhas diametralmente opostas de pensamento: a dos progressistas e a dos conservadores. Da primeira nasceu a Teologia da Libertao, que inclua grupos favorveis  mistura de conceitos marxistas aos ensinamentos cristos. Da outra corrente surgiu o grupo Tradio, Famlia e Propriedade, que combatia o comunismo. Ambas encolheram a caminho da irrelevncia. 
     A polarizao dos catlicos, esmiuada na reportagem de capa da segunda edio de VEJA, comeou a abalar um dos principais pilares da Igreja: a comunicao com os seus seguidores. O embate deu incio a uma expressiva evaso de fiis, vivssima nos dias de hoje. 
     No Brasil, pouco a pouco os pentecostais ganharam fora, com sua pregao prtica da f, num tratamento da Bblia como uma espcie de manual de autoajuda. A frmula pegou em cheio os catlicos carentes de amparo religioso. Na dcada de 60, apenas 4% dos brasileiros se declaravam evanglicos. Hoje, 22% da populao diz o mesmo. So 42 milhes de pessoas. Eram apenas 3 milhes em 1960. O papa Francisco representa agora uma renovadora esperana ps-conciliar para a Igreja catlica enfrentar o problema. O papa do povo, o papa simples ou o papa da essncia crist, como tem sido chamado pelos catlicos, sabe falar com seu rebanho  o que ficou claro na Jornada Mundial da Juventude realizada em julho no Brasil.  tudo de que a Igreja precisa neste momento. 

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RENOVAOE TRADIO
18 de setembro de 1968
O embate entre progressistas e conservadores no interior da Igreja Catlica estava acirrado no fim dos anos 60, como demonstrou VEJA em sua edio de nmero 2. No texto, a revista apresentava as correntes em conflito, representadas, respectivamente, por dom Hlder Cmara, arcebispo de Olinda e Recife, e Plnio Correia de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradio, Famlia e Propriedade.

TRECHO "Para cumprir a sua misso social, a Igreja (...) procurou primeiro conhecer a si mesma e o Brasil. O Plano de Pastoral de Conjunto de 1965-70, aprovado pela VII Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil, j realizou mais de cinquenta pesquisas, com todos os recursos cientficos disponveis no pas, sobre assuntos que vo desde a situao do trabalhador rural at a influncia do ensino religioso na formao da cultura do povo brasileiro. (...) A TFP, antes da campanha 'contra a infiltrao esquerdista no clero' (...), havia conseguido no governo Goulart assinaturas contra a reforma agrria. (...) Hoje a TFP tem ncleos em cinquenta cidades de doze estados, ramificaes no Peru, Colmbia, Equador, Chile, Argentina e Uruguai  e combate o presidente Frei, do Chile, cujo governo considera propcio ao socialismo." 


2. EDUCAO  MODELO REPROVADO
Depois de mais de quarenta anos da reforma que apostava no ensino profissionalizante, o Brasil continua aferrado a uma ideia ultrapassada de escola  o que s acentua o desinteresse dos estudantes e agrava a evaso.
NATHALIA BUTTI

     O americano Richard Feynman, prmio Nobel de Fsica, costumava passar longas e agitadas temporadas no Brasil. De noite, aprendia a tocar percusso e consolidava a reputao de mulherengo inveterado; de dia, lanava seu olhar cortante sobre a educao brasileira, que muito o intrigava. Feynman logo percebeu que os jovens daqui eram apresentados na sala de aula a um currculo que, por sua extenso, no tinha paralelo com nada que vira mundo afora. S que os estudantes aprendiam muito pouco, ou quase nada, como registrou no livro Deve Ser Brincadeira, Sr. Feynman!, um dos mais precisos testemunhos sobre o maante, enciclopdico e ineficaz ensino brasileiro. Aqueles eram os anos 1950. Quando o coronel e ento ministro da Educao Jarbas Passarinho riscou, em 1971, seu plano para sacudir o velho modelo de escola  momento registrado em todos os seus detalhes na matria de capa de VEJA , o cenrio que atormentava o fsico americano vinte anos antes s se agravara. O pacote que o MEC trazia a pblico continha em sua essncia um ponto fundamental: a ideia de oferecer em todo o ciclo escolar disciplinas com vis profissionalizante, voltadas para as demandas concretas do mercado de trabalho que se expandia no rastro de um crescimento econmico na casa dos dois dgitos. 
     A iniciativa encontrava eco na Europa e nos Estados Unidos, onde o ensino de nvel tcnico descortinava uma via alternativa  universidade e preparava grandes massas para suprir as lacunas da indstria. No Brasil, porm, o plano de Passarinho no deslanchou. A nova lei exigia que cada estado introduzisse as disciplinas profissionalizantes no currculo tradicional, uma tarefa complexa, que demandava no s novas estruturas fsicas e professores capacitados, como uma maneira diferente de pensar o ensino. "Foi uma tentativa frustrada de tornar a escola mais atraente e til para a parcela de jovens que, por motivos financeiros ou mesmo de ambio intelectual, no miravam a universidade", diz a doutora em educao Maria Ins Fini. "Fazia todo o sentido, mas no vingou." 
     Nas mais de quatro dcadas que se passaram, o desencanto com a engessada escola brasileira s se acentuou  situao que fica bem clara nos nmeros sobre a revoada de alunos da sala de aula. De cada 100 que ingressam no ciclo fundamental, apenas 65 o concluem; no ensino mdio, a metade (isso mesmo) fica pelo caminho. Muitas razes pesam para a desero dos bancos escolares e todas elas reforam aquilo que j afligia o Nobel de Fsica nos anos 50 e os especialistas do MEC nos 70: ao contrrio dos pases mais bem-sucedidos na educao, o Brasil oferece um nico e monoltico modelo de escola. Est sozinho no sistema que inventou. Na Europa, h vrias opes de instituio para diferentes perfis e objetivos; nos Estados Unidos, o aluno conta com um alto grau de flexibilidade para montar a grade de matrias que condiz com suas aspiraes e habilidades. "No Brasil, sob o discurso do igualitarismo, todo mundo tem acesso a um mesmo modelo que, supostamente, daria oportunidades iguais a todos.  um grande equvoco, que se fundamenta na velha cultura bacharelesca brasileira e extermina o futuro da maioria", alerta o especialista em educao Joo Batista Oliveira. Um equvoco caro: 5,3 milhes de jovens brasileiros integram hoje a gerao "nem-nem"  nem estudam nem trabalham. 
     Olhares atentos sobre a sala de aula ajudam a entender por que ela espanta esses jovens. Em uma pesquisa da Fundao Getulio Vargas, quando indagados sobre por que abandonaram a escola, 40% responderam, sem meias-palavras: "Ela no  capaz de despertar o meu interesse". Isso faz recair a ateno sobre a figura do professor, pea-chave para um ensino atraente e de bom nvel. A posio do Brasil nos exames internacionais  sempre na rabeira  mostra que a rgua precisa se elevar, e j. Um estudo da Fundao Victor Civita derrama luz sobre a durssima realidade escolar: no ensino mdio, s 19% veem algum sentido em aprender literatura, e no mais que 28% enxergam utilidade em qumica e fsica. Um de cada quatro entrevistados afirma, ainda, que o desinteresse pelo aprendizado comea com seus prprios mestres. No so poucos os alunos que vo  escola apenas para obter o diploma: eles so 20% de toda a amostra. 
     A discusso sobre os rumos da educao em um mundo cada vez mais digital e globalizado  universal. Historicamente, o af modernizador j tragou muito tempo e dinheiro com tentativas de aliar novas tecnologias ao ensino, sem no entanto abalar os antigos pilares. Foi assim com o rdio e, mais tarde, com o advento da TV. Neste momento, a nata da academia mundial se debrua sobre os desafios de achar caminhos para fazer da internet uma ferramenta verdadeiramente valiosa para a sala de aula. Algumas experincias, encabeadas por gente como o matemtico americano Salman Khan e outros enrgicos  e bem preparados docentes, apontam a direo. Eles oferecem contedo de elevado padro na rede e assim liberam os alunos das maantes e improdutivas explanaes na velha lousa. Desse modo, sobra tempo na escola para sedimentar o conhecimento por meio de projetos acadmicos e discusses de mais alto calibre. 
     O Brasil est longe de dar essa guinada. Continua aferrado  ideia de que escola boa  a que oferece mais contedo, e no a que ensina a ordenar e a interpretar o tanto de informao j disponvel. "Em resumo, a escola brasileira  incapaz de estimular a criatividade e a capacidade de inovao que o mundo de hoje requer", observa o socilogo Simon Schwartzman.  essa a escola que est expelindo os alunos e podando suas oportunidades  tanto as de talhar habilidades para carreiras de nvel tcnico, como as de alar os jovens ao ensino superior (no qual, s para lembrar, o Brasil tem taxas de matrcula bem acanhadas em relao s do restante do mundo). J era assim naqueles tempos em que VEJA tratava do plano de Passarinho para revolucionar a escola  e assim ficou. O Brasil precisa virar a pgina. 
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FORMAO DE MO DE OBRA
30 de junho de 1971
Evidenciando sua preocupao com o ensino no pas, VEJA dedicou reportagem de capa ao projeto de reforma educacional apresentado pelo governo em 1971. A principal novidade era a nfase no carter profissionalizante do chamado 2 grau. O especial trazia uma entrevista com o ministro da Educao, coronel Jarbas Passarinho. Nela, ele dizia estar preocupado com os "nufragos do vestibular", ex-estudantes secundrios que no sabiam fazer nada, segundo sua avaliao: "Queremos proporcionar a eles o aprendizado de uma profisso no meio caminho para a universidade".

TRECHO "No 1 grau, a formao especial consistir de 'sondagens de aptides e iniciao para o trabalho'. Assim a reforma reconhece que, em muitas regies ou nveis econmicos, um adolescente de 15 anos precisa interromper os estudos para trabalhar  e quer prepar-lo para isso. No 2 grau, a formao especial consistir em aprofundamento de certos campos de estudo (preparao para a universidade) ou de habilitao profissional (preparao para o trabalho). Os currculos de habilitao profissional sero fixados de acordo com o mercado de trabalho, local ou regional.  de acordo com cada profisso que o 2 grau ter trs ou quatro anos." 


3. ANTROPOLOGIA  QUANDO OS NDIOS DEIXARAM DE SER SELVAGENS
O fotgrafo Pedro Martinelli volta a Peixoto de Azevedo, em Mato Grosso, onde registrou, em 1973, o primeiro contato dos irmos Cludio e Orlando Villas Bas com os ndios panars.
LEONARDO COUTINHO
     O olhar do homem de sandlias de borracha, camiseta de algodo e agasalho Adidas que caminha sobre a serapilheira na foto ao lado no expressa a surpresa do homem nu, em meio  natureza intacta, com alargadores nas orelhas e arco e flechas na mo que aparece nas pginas anteriores. A expresso endurecida contrasta com o assombro de sua feio boquiaberta ao encarar diretamente o fotgrafo. So instantneos de um extraordinrio e irreversvel fenmeno: a contaminao, maldita e bendita, do mundo primitivo pelo civilizado. 
     Quatro dcadas separam as duas imagens de Skriti, o primeiro ndio a se mostrar, em 1973, para os irmos Cludio e Orlando Villas Boas, depois de cinco anos de expedio  procura dos lendrios "ndios-gigantes". Trinta metros separavam Skriti do fotgrafo Pedro Martinelli, porm quase cinco sculos distanciavam as culturas que ali se encaravam.

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BAL DE CULTURAS
14 de fevereiro de 1973
Um encontro entre a civilizao e o mundo selvagem, o presente e o passado, o Brasil moderno e o Brasil nativo. Assim poderia ser definido o primeiro contato do homem branco, representado pelos sertanistas Cludio e Orlando Villas Boas, com os panars, os ndios-gigantes, registrado na reportagem de capa de VEJA. Equilibrando-se numa canoa que flutuava nas guas do Rio Peixoto de Azevedo, em Mato Grosso, o fotgrafo Luigi Mamprin (1921-1995), veterano das misses dos Villas Boas pela selva adentro, documentou o histrico momento, descrito pela revista como um "bal de culturas por tantos sculos separadas". Trabalhando para o jornal O Globo, o fotgrafo Pedro Martinelli tambm registrou o contato. Martinelli faria parte da equipe de VEJA entre 1977 e 1984.

TRECHO "L estavam eles. Atlticos, pintados de preto da cabea aos ps, nus por completo, os cabelos aparados  altura da orelha, os kranhacrore, ou ndios-gigantes. Eram oito e todos muito jovens, entre 15 e 18 anos. Nenhum deles mediria menos de 1,80 metro. Na clareira aberta pelos irmos Villas Boas na margem oposta de seu acampamento, no Rio Peixoto de Azevedo, extremo oeste de Mato Grosso, os adolescentes kranhacrore recolhiam presentes. Sua algazarra, ouvida de longe, significava um convite, abria o caminho para o contato esperado desde 1968, quando os Villas Boas realizaram a primeira expedio  terra. 
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     O registro de Martinelli antecedeu o momento em que Cludio, o lder da expedio, tocou a barriga de Skriti. Segurou-a como se a beliscasse e disse em meio a um sorriso: "ndio brabo, ndio brabo". No ms passado, depois de um abrao, em que deitou a cabea sobre o peito de Martinelli, Skriti, que jamais aprendeu a falar portugus, segurou o nariz do fotgrafo e repetiu a frase de quarenta anos atrs: "ndio brabo, ndio brabo". Para Martinelli, que acompanhou os irmos Villas Boas de 1971 a 1973 pelo jornal O Globo, foi  no h outro modo de dizer  uma viagem no tempo. "Ele fez exatamente como o Cludio", lembrou. Naquela ocasio, quem participou da equipe de desbravadores por VEJA foi o fotgrafo Luigi Mamprin, que morreu em 1995. Por meses a fio, ele e Martinelli viveram como os mateiros, tendo carne de macaco na dieta, abrindo picada no mato e confeccionando artesanato para dar de presente aos ndios. 
     No fim dos anos 60, o governo federal acreditava que a Amaznia era um vazio demogrfico que precisava ser "integrado" s demais regies do pas, sob pena de o Brasil perder a soberania sobre a floresta. Os militares avanaram mata adentro construindo estradas e abrindo frentes de colonizao. No entanto, justamente onde passaria um dos projetos de maior relevncia, a BR 163, viviam ndios isolados. Um povo desconhecido, que os recm-contatados txucarrames chamavam pejorativamente de kranhacrore e espalhavam a fama de ser gigantes. O nome significa "cabea cortada redonda", em referncia ao corte de cabelo aparado rente s orelhas. O mito dos gigantes vinha de um caso extraordinrio. Inimigos dos kranhacrore, os txucarrames sequestraram uma criana da tribo rival. O menino cresceu e superou os 2 metros de altura. Mengrire, como ele era chamado, assombrava os demais, cuja estatura raramente ultrapassava 1,70 metro. 
     Somente meses depois do contato e das primeiras interaes, os irmos Villas Boas descobriram que os ndios se autodenominavam panars. Cumprida a misso do estabelecimento do contato. Orlando e Cludio aposentaram-se e entregaram os prximos passos do processo a outros indigenistas da Funai. Os brancos que passaram a interagir com os panars aceleraram a "aculturao". Em dois anos, a populao de 600 ndios caiu para 79. Na iminncia do desaparecimento da etnia, a soluo encontrada foi transferir os sobreviventes compulsoriamente para o Parque Indgena do Xingu. Em 1975, eles foram colocados em avies C-47 da FAB e enviados para a reserva. "Fui o ltimo a entrar no avio", recorda Skriti. 
     Em princpio, a mudana para o Xingu agravou o colapso dos panars. Nos primeiros dois meses, cinco ndios morreram. Antes do trmino do ano foram outros cinco, incapazes de adaptao  nova dieta e ao estilo de vida, vtimas de doenas. Aos poucos, o quadro foi se alterando, assim como alguns hbitos dos panars  foi no Xingu, por exemplo, que, eles aprenderam a fazer canoas. Os mais jovens se casaram com representantes de outras etnias, e assim a populao voltou a crescer. Em 1996, quando os panars ganharam na Justia o direito  demarcao de uma reserva prpria em uma poro original de seu territrio, eles j somavam 174 indivduos. De volta para casa, viveram uma exploso demogrfica. Em 2010, o IBGE contou 913 pessoas da etnia. 
     Os panars foram salvos do extermnio, entretanto tudo ao redor deles mudou  quase sempre para pior. A esplanada onde suas malocas estavam erguidas em 1973  hoje a praa central de Matup. O Rio Peixoto de Azevedo, onde eles pescavam e nadavam, est contaminado pelo mercrio do garimpo ilegal. Sob a ponte por onde a BR 163 atravessa o mesmo rio, mendigos e viciados em crack se amontoam. 
     Todos os dias, dezenas de panars so vistos zanzando pelas ruas de Peixoto de Azevedo, Matup e Colder. Hospedados nessas cidades s expensas da Funai  que, h poucos meses, perdeu o monoplio sobre a demarcao das terras indgenas, mas insiste em se manter relevante na sua atitude paternalista para com os ndios , eles recorrem aos postos de sade para atendimento mdico e periodicamente gastam o dinheiro que recebem do programa Bolsa Famlia em supermercados da regio. "No h dvida de que o contato deveria ter sido feito, mas no se poderia ter desviado a estrada apenas 100 quilmetros? A destruio ambiental, o quase extermnio dos panars e os problemas sociais da regio so resultado de um governo que no planeja bem. O que aconteceu com esses ndios e com essa parte do Brasil deveria servir de lio perptua para que as coisas passassem a ser feitas direito neste pas", diz Martinelli.  


4. SOCIEDADE  A FAMLIA VAI BEM, OBRIGADO

UM AVANO MUITO ESPERADO
22 de junho de 1977
Saudada como um avano social e jurdico, "to esperado e tantas vezes adiado", a chegada do divrcio ao Brasil foi tema de uma reportagem de capa que se estendia por oito pginas. Autor da emenda constitucional que instituiu a dissoluo legal do casamento no pas, o senador Nelson Carneiro teve seu empenho de trinta anos em favor da causa divorcista destacado pela revista. Para alm do minucioso relato da mobilizao poltica que levou  aprovao da lei, a reportagem se detinha nas mudanas que ela introduziria no perfil da sociedade brasileira.

TRECHO "Desde sua primeira eleio, em 1947, Nelson Carneiro s perdeu uma, em 1954  fato por ele atribudo  influncia da Igreja Catlica, contrria  sua postura divorcista. A ideia do divrcio surgiu na cabea do parlamentar atravs de sua experincia como advogado em causas civis, ainda na Bahia, onde pde comprovar a existncia de famlias constitudas que no podiam ser legalizadas. Com o tempo, Carneiro foi obtendo pequenas vitrias, como a emancipao da mulher casada e o direito de a companheira usar o sobrenome do companheiro. Mas ele esperou trinta anos pela semana passada, sua semana de glria. Desde segunda-feira em Braslia, onde divide um apartamento com o deputado paulista Ulysses Guimares, presidente do MDB, Carneiro visitou segunda e tera, um por um, todos os 423 gabinetes de deputados e senadores, mesmo dos seus mais ferrenhos adversrios. 
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A instituio mudou, claro, no entanto permanece forte, quase quatro dcadas depois da aprovao do divrcio.
TNIA NOGUEIRA

Papai deve ter pensado em mim quando criou a Lei do Divrcio", brinca Laura Carneiro, a filha caula do senador Nelson Carneiro e de sua segunda mulher, Maria Luisa. "Adoro casar e descasar", diz ela, rindo. A vereadora carioca (PTB), de 50 anos, se casou, e se divorciou, duas vezes. Ela alimenta uma estatstica contundente dos tempos atuais: um em cada cinco casamentos  resultado de reincidncia conjugal, segundo dados de 2011, os mais recentes divulgados pelo IBGE. Em seu prprio cl, no entanto, Laura  a nica divorciada. Seu irmo, Jorge Monteza, de 60 anos, est casado h 35, e a irm, Luisa Monteza Rego, de 59 anos, completar quarenta de casamento em 2014. No, a famlia brasileira no se extinguiu com o divrcio, como profetizavam os que se batiam contra a bandeira de Nelson Carneiro na dcada de 70. 
     Para tirar a dvida, no  preciso ir longe. Basta ver reunidos, na casa de Laura, num condomnio de luxo da Barra da Tijuca, os descendentes do senador baiano, que morreu em 1996. Alm dos filhos do poltico, um encontro assim inclui as duas filhas e a neta de Jorge: o filho e os dois netos de Luisa; e a filha de Laura, todos com o respectivo cnjuge. Passadas quase quatro dcadas da instituio do divrcio no pas, a famlia permanece saudvel como espinha dorsal da sociedade brasileira  ainda que um tanto mudada. 
     Em meados do sculo XX, o divrcio no Brasil parecia uma ameaa terrvel; no por acaso, demorou quase trinta anos para ser aprovado. Jurista voltado para o direito de famlia, Nelson Carneiro j defendia o divrcio na dcada de 50. Brigava por ele havia anos quando, em uma viagem ao Peru, em 1961, conheceu Maria Luisa, uma bela jovem de famlia aristocrtica, divorciada e me (de Jorge e Luisa). Em dois meses, estavam casados. "Chegaram a dizer que papai criou essa lei em causa prpria, porque mame era divorciada", lembra Jorge. "Mas o projeto tinha mais de dez anos quando eles se conheceram." Jorge e Luisa foram criados como filhos pelo senador. "Ele nos assumiu assim imediatamente, sem nenhuma restrio", conta Jorge. "Foi o nico pai que conheci." 
     Acusado de tentar destruir os lares brasileiros, Nelson Carneiro foi sobretudo um homem de famlia. Quando conheceu Maria Luisa, tinha 50 anos e era vivo. Como sua primeira mulher no podia ter filhos, havia criado duas sobrinhas da companheira como se fossem suas filhas. Com a me de Jorge, Luisa e Laura, o poltico viveu precocemente um modelo de famlia hoje muito comum, no qual os laos afetivos substituem os sanguneos. 
     No incio da dcada de 80, Maria Luisa, que nunca se acostumou  vida pblica, decidiu separar-se de Nelson Carneiro. Com mais de 70 anos, ele voltou a se casar e assim permaneceu at a morte. Foi um homem de vanguarda, mas no uma exceo: desde a dcada de 50, os brasileiros vinham rompendo casamentos e refazendo a vida em novas unies. Os mais ricos se desquitavam por aqui e voltavam a se casar no exterior. Quem no tinha condio de viajar era obrigado a viver "amigado", como se dizia na poca. "A sociedade muda e a roda do direito vem atrs. O fato social sempre acontece antes", diz a advogada Marilene Guimares, presidente do Instituto Interdisciplinar de Direito de Famlia. 
     A Lei do Divrcio ajudou a pr um ponto-final no preconceito que existia contra as famlias formadas por desquitados. "No passamos por isso porque minha me era peruana, tinha se casado e se divorciado no Peru, era solteira no Brasil, e papai era vivo", afirma Jorge. "Eles se casaram num cartrio no Rio, tudo certinho. No foram ao Paraguai para fazer um casamento que no valia por aqui." A famlia sofreu hostilidades, mas por parte de membros da Igreja e catlicos fervorosos, revoltados com a defesa que o senador fazia da dissolubilidade do casamento. "Para batizar a minha filha mais velha, Karina, foi difcil achar um padre em 1980", lembra Jorge. 
     As mudanas que a nova lei traria  sociedade eram uma incgnita at mesmo para aqueles que a apoiavam. "Esperava-se, por exemplo, que fosse surgir um nmero enorme de famlias monoparentais, de filhos de casais separados crescendo sem pai", explica Marilene Guimares. "No foi o que ocorreu." Segundo dados do IBGE, em 2011, em quase trs quartos dos lares onde filhos coabitavam com os pais, havia o pai e a me. No restante, a grande maioria morava s com a me. Os nmeros no indicam, no entanto, quantas dessas mes que moravam sem marido eram vivas, nem quantas eram mes solteiras. 
     Dizia-se tambm que a famlia diminuiria  e, ao contrrio, ela cresceu. Hoje  comum a mulher ter filhos do primeiro casamento, o marido idem e o casal ter mais um ou dois em comum. "O grupo pode, ainda, incluir um cunhado de outro casamento, a ex-mulher, a av do meio-irmo, o irmo do irmo, o namorado da av, o ex-enteado da esposa, vrios tios, vrios primos, e por a vai", enumera Marilene Guimares. "E no fim de semana todo mundo se rene. Ou seja, a famlia voltou a ser grande. Isso  bom. As pessoas tm mais opes na hora de buscar apoio." A participao masculina nas tarefas da casa aumentou, especialmente no que se refere ao cuidado com os filhos, e o nmero de casais divorciados que vm optando pela guarda compartilhada tem crescido. "Guarda compartilhada no  exatamente a mesma coisa que tempo compartilhado", sustenta Marilene. "Significa que pai e me tm de dividir todas as responsabilidades e decises sobre a vida da criana." 
     Nos primeiros tempos do divrcio no Brasil, era frequente a guarda dos filhos ficar com a me, o pai refazer sua vida com outra mulher, sumir no mundo e s aparecer para uma visita quinzenal. Com o passar dos anos, muitos homens comearam a fazer questo de ter mais tempo com os filhos. "No casamento, a relao dos pais com as crianas costuma ser intermediada pela me", afirma a antroploga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Quem diz o que elas vo comer, o que vo vestir, se tm de fazer lio de casa ainda  a mulher. E o pai que no invente de mudar as regras dela! Para os homens que querem participar mais da vida dos filhos, o divrcio acaba sendo at uma oportunidade de aproximao. Na casa do pai, quem manda  ele: serve a comida | que quiser, compra as roupas etc." 
     Embora dolorido, o divrcio deixou de ser um trauma terrvel tanto para os filhos como para o prprio casal. Ele jaz vem "embutido" no pacote do casamento. "As pessoas se casam pensando que h a opo do divrcio", observa Mirian. "Antes, acreditavam no 'at que a morte os separe'. O homem tinha amantes e a mulher aceitava. O casamento no  mais indissolvel. Contudo, a famlia ainda  um valor muito forte na nossa sociedade. Se o primeiro casamento no d certo, os dois vo tentar reconstruir o ideal de famlia feliz com outras pessoas.  a monogamia serial." 
     A gerao dos filhos do senador Nelson Carneiro viveu essa mudana de comportamento. Laura se casou pela primeira vez aos 19 anos, em 1983. Seis anos depois, sem filhos, sentindo que o amor havia acabado, foi se aconselhar com o pai, "No tive coragem de dizer de cara que queria me separar", conta. "Ento, falei de uma amiga que tinha se casado nova e no gostava mais do marido. Perguntei o que ele faria no lugar dela. 'No teria dvidas, me separaria na hora', respondeu papai. J mame ficou chateada." Depois da separao, a filha do senador teve uma unio estvel de dois anos e acabou se casando novamente, com um terceiro homem. Desse segundo casamento nasceu sua filha, Giovana, hoje com 16 anos de idade. Trs anos depois, Laura estava divorciada novamente. " muito difcil manter uma relao sendo poltica", diz ela. "No sei se aguentaria viver sob o mesmo teto novamente. Talvez mais tarde, quando me aposentar." Pesquisas de comportamento indicam crescimento do nmero de mulheres que, depois de ter vivido anos em um casamento, muitas vezes aborrecido, decidem ficar sozinhas na maturidade. "Elas dizem que esto vivendo o melhor momento de sua vida", relata Mirian. "Comemoram o fato de no precisarem mais cuidar do marido e dos filhos." 
     Vencida a etapa do direito ao divrcio, uma fora ainda mais avassaladora mudou as relaes de poder dos casais: a entrada da mulher no mercado de trabalho. "As mulheres da gerao da minha me nem questionavam sair do casamento porque no tinham como se sustentar", diz a psicloga Marcia Luz, especialista em recursos humanos. "A lei  decisiva, porm, para tomar uma atitude e viver sozinha, o mais importante  ter respaldo financeiro", argumenta. "Para o homem, a figura da famlia est acima de tudo. Os homens, na maioria das vezes, mesmo que tenham amantes, no querem dissolver a famlia. J o que segura uma mulher no casamento  o amor romntico." 

A HERANA DE CARNEIRO
A vida conjugal dos enteados e da filha do pai da Lei do Divrcio no Brasil
Jorge Monteza, o mais velho,  casado h 35 anos, tem duas filhas adultas e uma neta.
Luisa Monteza Rego casou-se aos 19 anos e assim continua at hoje; tem um filho e dois netos.
Laura Carneiro, a caula, casou-se aos 19 anos, divorciou-se aos 26, casou-se novamente aos 33, teve uma filha e voltou a se divorciar.

O AMOR EM DOIS TEMPOS
A porcentagem de pessoas solteiras com 15 anos ou mais subiu; o nmero de casados caiu e o dos que romperam ligaes conjugais dobrou
1970
Casados em unio estvel  55,5%
Solteiros  36,7%
Descasados  2,5%
Vivos  5,3%
Total 54 milhes de pessoas

2011
Casados em unio estvel  39,9%
Solteiros  48,1%
Descasados  5,9%
Vivos  6,1%
Total 249,7 milhes de pessoas

MENOS BUROCRACIA, MAIS DESCASADOS
Depois de julho de 2010, com a queda da exigncia legal de prazos e de separaes judiciais, a taxa de divrcios subiu vertiginosamente
(por 1000 habitantes com mais de 20 anos)
1991: 1
2011: 2,6


5. SOCIEDADE  MALU MULHER DE VERDADE

SOCILOGA, LIBERTARIA
E - UFA! - SEM MARIDO
18 de julho de 1979
O sucesso do seriado Malu Mulher, protagonizado por Regina Duarte, no se devia somente aos delicados cuidados da produo como retraio de um tempo, ao carisma da atriz ou mesmo  boa receptividade do pblico  transformao da antiga "namoradinha" do Brasil em uma sociloga independente e libertria, que no hesitava em se separar do marido. Em reportagem de capa VEJA flagrou, no rastro da enorme audincia de Malu, uma nova realidade do pas: o crescimento do nmero de mulheres descasadas. Foi um susto pela TV.

TRECHO "Numa noite de junho, por volta de 10 e meia da noite, Malu foi vista por milhes de testemunhas entrando na bonita casa de praia de um amigo, em Ubatuba. De dia ela havia depilado pernas e axilas, lavado os cabelos, exercitado ao telefone um tom insinuante de promessas e de esperanas. De noite, dirigiu-se  cama do amigo, fez alguns rodeios, deitou-se  e, diante de uma plateia consternada e aflita, fracassou miseravelmente. Mas por pouco tempo. Antes de 11 da noite, enlaada pelos braos, pela compreenso e pela competncia do amigo, ela voltava  cama para uma nova batalha de carcias. Ainda aflita, quem sabe roendo as unhas numa torcida surda ou numa condenao silenciosa, a grande plateia plantada diante dos aparelhos de TV viu ento uma cena extraordinria: a mo de Malu, primeiro crispada, soltava-se e abria-se numa prova de que o orgasmo finalmente explodia no vdeo nacional." 
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AMLIA? NO
Malu (Regina Duarte) discute com Pedro Henrique (Dennis Carvalho), de quem se separaria logo no incio da trama: a transformao da namoradinha do Brasil refletia a prpria mudana no universo feminino . 

Regina Duarte representou em seriado na TV o surgimento de uma nova personagem no cotidiano do pas, sem medo do fim do casamento. 
MARY DEL PRIORE

     Maio de 1979: a msica do seriado Malu Mulher invadia as telas em horrio nobre. A cano, popularizada na voz de Simone, explodia nos versos: "Comear de novo/E contar comigo / Vai valer a pena /(...) Ter sobrevivido ". Surgia uma personagem nova no cenrio social: a descasada. Antes malfalada, agora cada vez mais presente, resultado da Lei do Divrcio, promulgada em 1977. Inspirado no filme Uma Mulher Descasada, de Paul Mazursky, lanado em 1978, o seriado se propunha a discorrer sobre as dificuldades enfrentadas por uma mulher separada, alm de introduzir a questo inescapvel daquele momento: a emancipao feminina. Foram tempos em que as mulheres comearam a dar um basta ao matrimnio infeliz. 
     Mas quem era a descasada e o que ela significava? Para comear, o oposto da rainha do lar dos anos 50 e 60, o avesso da Amlia da cano. Uma esposa para quem o bem-estar do marido era a medida da felicidade conjugal. Tinha como caractersticas elogiveis as prendas domsticas e a reputao baseada em mandamentos: no criticar, vestir-se sobriamente, no ser vaidosa nem gastadeira. O sentido de prontido para satisfazer s necessidades dos entes queridos era lei. Cime do marido? Nunca. Permitir que ele sasse com amigos, perdoar traies e atra-lo com afeio eram procedimentos recomendados. A grande ameaa? A separao. As necessidades econmicas  pois a maioria das mulheres de classe mdia e alta dependia do provedor  e o reconhecimento social  a separada era malvista  pesavam a favor do casamento a qualquer preo, mesmo os mais insuportveis. 
     Mas esse modelo se esvaziava quando Malu Mulher chegou. Ficava longe o tempo em que o marido dava ordens  esposa, como se fosse seu dono. Uma vez acabado o amor, muitas mulheres buscavam a separao. Um novo ato se abriu com o desembarque da plula anticoncepcional no Brasil. Livres da sfilis e, ainda, longe da aids, as descasadas podiam experimentar de tudo. E escolher desobedecer s normas sociais, parentais e familiares. Inseridas no mercado de trabalho e autnomas graas ao crescimento econmico, elas multiplicavam encontros em torno de festas, atividades esportivas, universidades e cinemas. Boates se abriam para as "gatas" que copiavam no vestir e nos penteados as protagonistas do seriado As Panteras. "Gostosa", na voz das Frenticas ("Sei que eu sou bonita e gostosa..."), representava tentativas de adaptao a um mundo novo. Na moda, a minissaia despia as coxas. Lia-se o bombstico Relatrio Hite, etiquete sobre a sexualidade feminina. Era o incio do direito ao prazer para todos, sem que as mulheres fossem penalizadas ao manifestar seu interesse por algum. Tudo isso no causou um milagre, mas, somado a transformaes econmicas e polticas, ajudou a empurrar barreiras e a abrir lugar para as descasadas. 
     E elas aproveitaram outras mudanas: por influncia dos meios de comunicao, o vocabulrio passou a evitar eufemismos. Se antes se usava uma linguagem neutra para falar de sexo  sussurravam-se palavras como "relaes" e "genitais" , passou-se a dizer coito, orgasmo e companhia. Carcias se generalizavam e o beijo de lngua, antes considerado um atentado ao pudor, tornou-se sinnimo de paixo. Na cama, a higiene e o hedonismo alimentavam carinhos antes inexistentes. A plula se disseminou, no s porque era confivel, mas, sobretudo, confortvel. O orgasmo simultneo passou a medir a qualidade das relaes e significava o reconhecimento da capacidade feminina de gozar igual aos homens. Msica, literatura e cinema exibiam a intimidade dos casais. E at a Malu Mulher chegou ao clmax em horrio nobre! 
     No era fcil fazer as malas e mudar- e, enfrentar as recriminaes dos pais e o olhar dos amigos. Ou reivindicar uma existncia prpria, sem se sentir alijada da sociedade e constantemente culpada. Porm, as descasadas que recusam casamentos infelizes ou o papel de bichos de estimao ajudaram a extinguir as relaes verticais entre os gneros. O entendimento em torno da educao dos filhos, do oramento domstico e da rotina passou a ser assunto de sua agenda. No mundo do trabalho, elas hoje so vistas como "batalhadoras". E sobre essas "guerreiras" valem as palavras da jornalista Carmem da Silva, que durante anos colaborou na revista CLAUDIA, e que tanto as influenciou: "Existem momentos rduos, desalentadores, chatssimos. Mas no precisamos fazer um grande exame de conscincia para perceber que vale a pena". 
     Na dcada seguinte as Malus se multiplicaram e, assim como declinou a nupcialidade religiosa, aumentaram as unies informais e formalizaram-se mais separaes. Cada vez menos se evitava uma separao pelo tem  que era preciso pensar nos filhos. No s porque todas as crianas tinham pelo menos um amiguinno cujos pais j haviam se separado, mas tambm porque era difcil acreditar que ser criado no interior de um inferno conjugal pudesse lhes fazer bem. As taxas de divrcio provavam que cada vez menos a religio ou as tradies familiares tinham o poder de interferir na vida pessoal das brasileiras. s conquistas sobrevieram descobertas nem sempre agradveis. A de que existia um mercado do segundo matrimnio  e de que ele era, em geral, favorvel a ex-maridos, no s descasadas  foi uma delas. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios do IBGE mostraram que, em mdia, os homens divorciados tinham quatro vezes mais chance de se casar de novo que as mulheres em igual condio. E deu-se a chamada poligamia sequencial. 
     Malu mudou. E o Brasil tambm. Pesquisas recentes demonstram que pessoas se separam no porque o casamento no seja importante, mas porque sua importncia e to grande que os cnjuges no aceitam que ele no corresponda s expectativas. Desde julho de 2010, quando a legislao facilitou ainda mais o divrcio nos cartrios, as pessoas podem se casar num dia e se divorciar no seguinte. Antes, a separao s era permitida um ano depois do casamento. Mas as mulheres continuam  ai delas  romnticas: hoje, com ou sem marido, com ou sem famlia, um nico assunto as ocupa, o amor. Diferentemente de Malu, vida por emancipao, as jovens de nosso tempo aprendem por meio de macia doutrinao  via cinema, novelas, msicas, jornais e anncios publicitrios  que o amor  a chave que abre as portas do paraso na terra. Faz parte desse pacote a ideia de que um dia as mulheres encontraro um prncipe encantado com todas as qualidades da alma gmea. Ento vivero felizes para sempre, imunes a icebergs como os que afundaram o Titanic. E nada de sapo que  preciso beijar para transformar em prncipe, mas um prontinho: o prncipe prt--porter. 
     Segundo psicanalistas, a sociedade passou a criar uma expectativa inalcanvel. O casamento no  um mar de rosas e h um problema demogrfico: mais princesas do que prncipes. Eles se tornaram coisa rara, mesmo os sapos. Apesar das crises e do nmero de descasados, existe atualmente um movimento com tendncia a observar que o sucesso da unio no cai do cu. Ele decorre da valorizao de um compromisso de longo prazo, do exerccio cotidiano de pequenos gestos, surpresas e respeito mtuo. No sculo XXI, o amor parece cumprir a receita dada h quase setenta anos pelo poeta Vincius de Moraes: "que no seja imortal posto que  chama, mas que seja infinito enquanto dure". No  mais obrigatrio engolir sapos para no perder seu homem. O problema no est mais em ser descasada como a Malu de Regina Duarte, mas em permanecer casada, reinventando a unio a cada dia. 

Mary Del Priore  historiadora, autora de 39 livros sobre histria do Brasil, scia titular do instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro e do PEN Club do Brasil, entre outras instituies.


6. DEPOIMENTO  O SOL DA ANISTIA
O ex-guerrilheiro que cultivou o corpo e a alma na volta do exlio, e cuja trajetria foi corajosamente exposta em VEJA, rev o seu papel na sociedade, depois da carreira como deputado federal.

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NA TERCEIRA ENCARNAO
25 de fevereiro de 1981
Fernando Gabeira acabava de entrar em sua terceira encarnao, diagnosticou VEJA em reportagem de capa. Depois do guerrilheiro e do anistiado de tanga de croch, chegara a vez do cronista do pas oculto. Com Entradas e Bandeiras, seu terceiro livro, no qual relatava suas experincias no retorno ao Brasil, Gabeira se consolidava como o escritor da abertura poltica, "uma espcie de peregrino, solitrio, caminhando na busca 'de um pas com liberdades democrticas e sol o ano inteiro'".

TRECHO " improvvel que Gabeira mude, ainda desta vez, o Brasil. Mas essa  uma velha obstinao. Antes, tentou mud-lo com um revlver. Agora, tanto melhor, consegue sacudi-lo com a caneta (escreve a mo porque cansou de carregar a mquina de escrever: 'era muito pesada'). De todos os retornados da anistia de 1979, ele  o mais bem-sucedido. Lus Carlos Prestes ficou sem Partido Comunista. (...) Miguel Arraes, sem importncia. Os ex-lderes estudantis, treze anos mais velhos, ficaram sem estudantes. Os tericos da luta armada ficaram sem teoria. Todos os que, de uma forma ou de outra, tentaram fazer do retorno um resgate do passado fracassaram. E Gabeira  o smbolo do retorno ao presente, e, se possvel, ao futuro." 
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FERNANDO GABEIRA
     Aparecer numa capa de VEJA significou muito para minha carreira poltica, no tempo em que havia carreira e havia poltica em Braslia. 
     Representante de grupos minoritrios, com eleio sempre muito apertada, tornei-me o candidato a deputado federal mais votado do Rio, em 2006, com quase 300.000 votos. O salto permitiu que, mais tarde, eu pudesse encarnar a oposio nas eleies majoritrias que disputei com Eduardo Paes e Srgio Cabral, respectivamente para prefeito e governador. 
     O que une o trabalho poltico a uma revista combativa como VEJA  a luta contra a corrupo. Hoje a importncia dessa luta  mais popular, mas nem sempre foi assim. O crescimento econmico apoiado no aumento do consumo trouxe um grande nvel de satisfao aos setores ascendentes da sociedade. A corrupo para eles talvez tenha sido compreendida como uma espcie de taxa a ser paga aos polticos e funcionrios pblicos pela atmosfera de prosperidade. 
     Nos crculos polticos, a luta contra a corrupo jamais foi bem recebida. Pelo contrrio, levava  hostilidade e ao isolamento no Congresso. A esquerda sempre nos acusou de moralismo e nos comparou com a UDN, um velho partido chamado Unio Democrtica Nacional que combatia o governo Getlio Vargas e tinha entre seus expoentes o jornalista Carlos Lacerda. O que diziam para ns, nos corredores do Congresso? O importante no Brasil  reduzir as desigualdades sociais e distribuir a renda. Isso  histria com H maisculo: a corrupo  apenas uma nota de p de pgina. 
     Sempre insisti que a corrupo corroa o sistema poltico e que, alm disso, significava um enorme prejuzo econmico para o pas, algo que a revista VEJA quantificou em algumas oportunidades. O dinheiro perdido na corrupo poderia ser investido na melhoria dos servios pblicos, que foram se deteriorando, num movimento oposto ao aumento de consumo. 
     Esses bens, como educao de qualidade, assistncia mdica e um transporte pblico confortvel e a preo razovel, foram se tornando mais distantes, apesar de sua presena nas promessas eleitorais. O trabalho que realizei contra a corrupo como deputado federal sofreu um baque porque o governo fechou o cerco sobre o ncleo que resistia no Congresso. 
     A aliana do governo com os fisiolgicos, a ocupao de todos os espaos, a soma da experincia do PMDB e do PT  cada um especialista em um tipo de delinquncia  levaram o Congresso  beira do abismo. Fomos forados a apenas carimbar medidas provisrias vindas do Planalto. Tudo o que se permitia era incluir alguns tpicos nas medidas que pudessem garantir um troco para os deputados que relatavam e votavam a matria. 
     Criou-se um curioso pntano no qual era possvel, por exemplo, o governo propor a reduo do imposto na linha branca e um deputado incluir na medida provisria a mesma iseno para a indstria nuclear. De joelhos diante do Planalto, o Congresso se recusou tambm a votar projetos de grande repercusso na sociedade. Essa outra parte de sua tarefa acabou caindo nas mos do Supremo Tribunal Federal. 
     Marchas pela maconha, aborto, unio de homossexuais, tudo isso caiu no colo de ministros que no foram eleitos pelo povo. Sem discutir o mrito das decises do STF, posso afirmar que, de certa forma, elas enfraquecem a democracia ao anular ainda mais as atribuies do Congresso. 
     O clima poltico em Braslia tornou-se irrespirvel. Era tempo de reavaliar todo o trabalho. Felizmente, eu tinha para onde recuar. 
     J no fim da dcada de 80, a revoluo no campo da tecnologia das comunicaes era intensa. Quando correspondente da Folha de S.Paulo em Berlim, no incio dos anos 90, eu usava a internet para enviar o material produzido l. Isso influenciou meu choque com a esquerda, quando defendi, intensamente, a quebra do monoplio estatal das comunicaes. Sugeri o movimento dos sem-telefone. Nos pases do bloco socialista, demorava quase 24 horas para enviar um simples telex. Minha origem profissional indicava que a revoluo tecnolgica nas comunicaes provocaria muito mais mudanas no mundo do que os polticos engravatados. Hoje, como quase todos, tenho apenas uma cmera na mo. Um pouco mais sofisticada porque preciso ganhar a vida e contar histrias complexas, mas, basicamente, uma cmera na mo.  uma histria diferente daquela do passado no qual se recomendavam uma cmera na mo e uma ideia na cabea: agora precisamos tambm de uma boa conexo. 
     Nada como um junho depois do outro. As grandes manifestaes que abalaram o Brasil em 2013 revelaram que a crise econmica reduziu a tolerncia com a corrupo e que as pessoas que pagam impostos acham que tm direito a melhores servios pblicos. Qual o principal instrumento que os manifestantes usaram para se comunicar? Os ativistas de sof, como eram chamados os descontentes com tudo o que est a, foram para  a rua. E no foram sozinhos. Seus computadores tambm ocupam as ruas, na forma de smartphones. 
     Infelizmente, esses movimentos no encontraram no Congresso um grupo organizado para mediar suas aspiraes. Essa era a importncia do ncleo de trinta deputados que conseguiu anular aumentos salariais absurdos para parlamentares, aprovar, em primeiro turno, o voto aberto para cassaes, assim como contribuir para retirar Renan Calheiros da presidncia do Senado. Sem contar ainda a renncia forada de Severino Cavalcanti da presidncia da Cmara e a CPI dos Sanguessugas, que devastou a votao de boa parte dos deputados corruptos, nas eleies de 2006. 
     Que importncia teria esse ncleo diante das multides na rua? Afinal, elas foram suficientes para que o Congresso aprovasse rapidamente alguns projetos e corresse como uma barata tonta movida pelo instinto de sobrevivncia. Mas nem tudo o que se aprovou  sensato. A questo da agenda  fundamental.  sempre necessrio que algum de dentro da instituio desmascare suas tentativas de trapacear e iludir a opinio publica, coloque as questes certas na hora exata. 
     Diante de tantas ironias e crticas por priorizar a luta contra a corrupo, creio que os novos tempos confirmaram a importncia do trabalho que realizamos. Mais do que nunca, confirmei para mim mesmo que esse  o caminho quando a atmosfera poltica oficial se torna irrespirvel. VEJA jamais abandonou a trincheira da crtica, e  essencial registrar que ela no fez apenas um bem ao candidato sem dinheiro, com escassos votos minoritrios. Tanto naquele momento como nos posteriores, a revista prestou um grande servio ao Brasil. Os mritos no podem nos aprisionar numa zona de conforto: a luta est apenas comeando. Em sntese: tivemos apenas uma boa largada nessa maratona que promete ocupar muitos anos de nossa vida.  

Fernando Gabeira  jornalista e escritor, autor de O que  Isso, Companheiro? e Onde Est Tudo Aquilo Agora?, entre outros livros.


7. DEPOIMENTO  ENFIM, O SEXO FORTE
Bruna Lombardi escreve sobre a sexualidade feminina  livre de qualquer sentimento de culpa e da velha pecha de pecado representada por sua prpria trajetria, e que h trinta era postura malfalada.

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SUBSTANTIVO FEMININO
3 de outubro de 1984 
Dois meses depois de ser lanado, em 1984, O Perigo do Drago, livro de poemas sensuais da atriz Bruna Lombardi, no apogeu de sua beleza e fama, ento com 32 anos, j tinha vendido 25.000 exemplares. VEJA detectou no fenmeno das livrarias no apenas um sucesso editorial  poesia costuma ser um gnero acanhado em vendas  mas, sobretudo, o indicador de uma mudana na sociedade: o erotismo feminino comeava a ser vvido de modo mais natural. Bruna era uma espcie de porta-voz de uma nova mulher, que encarava a sexualidade sem culpa.

TRECHO  surpreendente que ela, como poeta, seja a negao do prprio esteretipo e, indo alm, seja um dos mais perfeitos indicadores da nova relao que as mulheres brasileiras estabelecem com o erotismo. Se Bruna/Patrcia, personagem da novela Louco Amor, recitasse versos de O Perigo do Drago, os telespectadores talvez acreditassem que a personagem enlouquecera de fato. No entanto, a poeta Bruna est mais perto das mulheres da vida real que Patrcia nas suas tentativas cosmticas de parecer uma jovem de verdade. 
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BRUNA LOMBARDI
     Sempre escrevi sobre o desejo, a sensualidade, o erotismo como a forma mais libertria da existncia. Aquela que no obedece a lei nem censura, mas cria a prpria escala de valores. O sexo como chave da liberdade. 
     Em 1984, quando publiquei meu terceiro livro de poesias, O Perigo do Drago, VEJA me ps na capa. O tema do desejo da mulher foi tratado de forma elegante e inovadora numa reportagem corajosa que se baseava na potica feminina, partindo do meu trabalho e cobrindo um arco que ia de Adlia Prado a Alice Ruiz. 
     Esse livro fez e faz muito sucesso at hoje nas redes sociais talvez porque o erotismo da mulher continue o mesmo. Mas muita coisa mudou. Inclusive as mulheres. 
     Naquele ano me surpreendi muito com a extraordinria repercusso de um simples livro de poesias, rapidamente cultuado por pessoas muito diversas  do poeta Paulo Leminski, que publicou uma resenha na prpria VEJA ("Bruna continua praticando uma espcie de humor irritado, que  sua marca  herana talvez de vov Carlos Drummond de Andrade, cuja poesia ela parece ter frequentado com prazer e proveito. Esse humor irritado est a servio de uma 'mulheridade' assumida ostensivamente, que  muito melhor que qualquer postura poltica"), ao dono das Organizaes Globo, o jornalista Roberto Marinho, que assinou uma crtica sobre O Perigo do Drago em seu jornal. Foi um marco para a poesia, para as mulheres e para mim. Mesmo que eu j tivesse sido capa de centenas de revistas, dessa vez o significado era outro. A revista mais influente do pas deu destaque para a mais clandestina das artes. E a mais ntima. 
     Hoje a poesia est de volta com fora, h muita gente novamente interessada em versos de qualidade (uma antologia de Paulo Leminski, Toda Poesia, est nos primeiros lugares entre os mais vendidos). E o sexo anda livre e solto em qualquer lugar.
     O que antes as mulheres confidenciavam hoje  exposto abertamente. Centenas de livros sobre o assunto rodam por a, zilhes de sites porns se espalham na internet, h uma sex shop em cada esquina, mulheres trocam de par como quem troca de roupa e nas baladas ficam com vrios parceiros. E, se algum criticar esse excesso, saiba que tudo isso  muito melhor do que a represso. Enfim, a liberdade chegou. E, com ela, uma onda de sentimentos contraditrios. Nunca se viu tanto vestido de noiva, tanta busca de prncipe encantado, tanto romantismo, tanta oferta, tanto desejo, tanta solido. Impossvel generalizar as mulheres  existem todas. Impossvel criar um comportamento-padro para esta era da diversidade de comportamentos. Para alguns, nunca houve tanta vulgaridade; para outros, a mulher livre continua submissa, s mudaram as regras. 
     Seja como for, a sensualidade sussurra, no grita. O erotismo atravessou civilizaes e  uma grande arte. A arte do sexo permeia a histria da humanidade, cria mitos atravs dos tempos. Culturas antigas deixaram legados, com seus mistrios e rituais. Preservar seus requintes deveria ser um bem sagrado como os segredos das sacerdotisas. Prticas orientais existem para tentar ensinar e relembrar pessoas a respeito de uma sabedoria que possivelmente faria do mundo um lugar pacfico e encantado. 
     Muito desse conhecimento foi perdido desde a destruio da Biblioteca de Alexandria at todas as fogueiras da Inquisio. O poder tem medo. Pessoas felizes no so facilmente dominadas. 
     Hoje, nossa sociedade  pragmtica e essencialmente consumista. Consumir sexo pode ser mecnico como qualquer outra compra. Mesmo que divirta e entretenha, mesmo que distraia e iluda. H homens e mulheres consumindo sexo como consomem objetos. Em algum momento nos fizeram acreditar que estvamos comprando felicidade. Quando, na verdade, a felicidade  que  a moeda definitiva. 
     Tenho falado de felicidade no meu trabalho porque acredito nela. E acredito que o sexo est intrinsecamente ligado a ela, assim como est intrinsecamente ligado a nossa emoo. 
     Dizem que os homens fazem sexo e as mulheres, amor  brinco com isso. Pode at acontecer o contrrio. Mas s vezes esses paradigmas so quebrados e se misturam e a, sim, acontece o novo. No momento estou filmando Amor em Sampa, e minha personagem, Aniz, tem um encontro de puro sexo. Meu novo livro de poesias, ainda indito, chama-se Clmax, ttulo de um poema que descreve orgasmos mltiplos. Isso mostra que o tema da minha capa na VEJA de 1984 no foi pontual, mas acompanha minha vida e meu trabalho. 
     O que me atrai no sexo no tem nada a ver com consumo. Tem a ver com um ser humano melhor. Mais feliz. Tem o desejo de lembrar a cada um de ns que viver apaixonadamente faz uma enorme diferena. Que ser movido a toda espcie de amor  uma atitude transformadora. Tem a ver com a frase do Gandhi: "Seja a mudana que voc quer ver no mundo". 
     Fazer sexo  muito bom. Fazer sexo com amor  o nirvana. E, ao contrrio do que reza a lenda, ele permite a entrada no paraso. 
     
Bruna Lombardi  atriz, escritora, roteirista e produtora (site: www.brunalombardi.coin.br)


8. TECNOLOGIA  O FIM CADA VEZ MAIS RPIDO

ENTRETENIMENTO DOMSTICO
22 de julho de 1981
Em 1981, havia mais de 50.000 aparelhos de videocassete nas casas brasileiras  nmero que crescia  proporo de 1000 equipamentos por ms, apesar de sua importao ser proibida. O incio do reinado desse renovador entretenimento domstico foi objeto de ateno de VEJA. Sob a vinheta "Vida moderna", a revista entrevistou usurios famosos, como a roqueira Rita Lee e o tcnico Tel Santana, registrou o surgimento das primeiras locadoras e mostrou o impacto cultural da novidade.

TRECHO "Basicamente, o videocassete revoluciona e amplia o uso da TV com o mesmo impacto com que os discos e gravadores mudaram a vida do rdio. Na aparncia, nas funes e at mesmo na operao, o videocassete  um gravador que,  diferena do comum, capta e transmite tambm a imagem. Basta enfiar um cartucho no aparelho e... plim, plim... adquire-se a mais absoluta liberdade em relao s redes de televiso do pas. O dono de um desses aparelhos pode colocar no seu vdeo o filme que o distribuidor ainda no trouxe para o Brasil ou mesmo aquele que a Censura proibiu."
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Nos ltimos 45 anos, o ciclo de substituio de um dispositivo por outro caiu de dcadas para poucos anos.  a vida e a morte diante de nossos olhos.
RENATA LUCCHESI

Desde o seu lanamento, em 1971, o videocassete reinou praticamente sozinho nas salas do mundo todo at o surgimento do DVD, em 1996. Um domnio to longo  exatamente um quarto de sculo   algo impensvel nos dias de hoje, quando a velocidade da mudana  to rpida que as novidades se sobrepem umas s outras. H natimortos como o Blu-ray, que mal entrou na adolescncia e j est ameaado pelos servios de distribuio de vdeo on-line, como o Netflix. O que antes se contava em dcadas hoje no passa de cinco anos. 

VDEO
1070  videocassete
1990  DVD
2000  Youtube; Blu-Ray; Streaming pago (netfix)

MSICA
1980  CD
1990  MP3; Compartilhamento (NAPSTER; iTunes
2000  Streaming (SPOTIFY)

TOCADOR PORTTIL
1980  Walkman; Discman
1990  MP3 Player
2000  IPOD (tocador combinado com loja virtual)

COMUNICAO PORTTIL
1970  Pager
1980  Celular; Smartphone com teclado
2000  iPhone

ARMAZENAMENTO PORTTIL
1970  disquete
1980  CD
1990  Zip driver; DVD
2000  Pen drive; Nuvem

COMPUTAO PESSOAL
1970  PC
1980  Notebook
1990  Palmtop
2000  Tablet PC
2010  IPAD


9. TECNOLOGIA  O MAC DA PERIFERIA ERA ASSIM

NO TEMPO DA CARROA ELETRNICA
19 de junho de 1991
Quase duas dcadas depois da deciso do governo de reservar o mercado brasileiro de computadores para empresas nacionais, o pas seguia na pr-histria da informtica. VEJA escancarou esse arcasmo justamente no momento em que o Congresso discutia a possibilidade de estender a aberrao para o sculo XXI, com o cuidado apenas de mudar o seu nome. Ao analisar as razes do atraso do Brasil em uma rea to estratgica, a reportagem conclua: "Tecnologia s progride quando h competio".

TRECHO "Na bolha de isolamento tecnolgico em que foi mantido, pela reserva de mercado, o Brasil tornou-se a maior carroa tecnolgica entre os pases de industrializao recente. Metade dos 800.000 computadores instalados no pas so modelos obsoletos que j saram de linha em centros mais adiantados, e a indstria brasileira no consegue exportar seus computadores nem para a frica. Na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, h 200.000 computadores a mais que no Brasil inteiro. (...) Se o problema atingisse apenas as indstrias de computadores, as perdas teriam sido relativamente suaves. O que acontece, porm, num mundo cada vez mais dependente da informtica,  que o veneno das carncias se infiltra em cada poro da vida nacional."
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Nos anos 80, o protecionismo burro fez brotar cpias caras e antiquadas. No  mais assim, mas convm estar atento a recadas nacionalistas,
ETHEVALDO SIQUEIRA

	Produzido em 1987 pela Unitron, uma pequena fbrica de material eletrnico da Freguesia do , bairro paulistano que inspirara um sucesso de Gilberto Gil, o Punk da Periferia, VEJA apelidou o computador que aparece na foto ao lado de Mac da Periferia. Era uma cpia de um modelo antigo do Macintosh, o computador pessoal da Apple de Steve Jobs que inventou uma era. O Mac 512  eis o nome do modelo pirateado  nascera envelhecido e caro. Custava ao redor de 4000 dlares de ento, ante pouco mais de 1100 dlares do Macintosh original mais prximo.  Escreveu VEJA na edio de 24 de junho de 1987: Na indstria automobilstica seria algo equivalente a lanar um Rolls-Royce Silver Ghost da dcada de 20 agora  um produto de qualidade, mas francamente obsoleto.

     O Mac da Periferia  benfeito,  frente do parque tecnolgico do Brasil daqueles anos 80 do sculo passado  era filho do desvo tico em que a poltica brasileira de reserva de mercado lanou a informtica no pas (informtica, dizia-se naquele tempo). Se no era possvel importar coisa boa, que se copiasse. cone de sinal trocado de um perodo que parece mesmo pertencer a outro milnio, o Unitron foi proibido de ser fabricado. Virou pea de museu.  relquia de uma curva insana da histria da industrializao e das liberdades econmicas no Brasil. 
     Convm record-la com ateno. As carncias dos computadores nacionais alcanaram seu ponto mais dramtico em 1984, com a Lei n 7232, que fixava linhas ainda mais rgidas para a Poltica Nacional de Informtica (PNI). A lei consolidava um conjunto de medidas protecionistas e xenfobas que criava barreiras  entrada de fabricantes estrangeiros e  importao de computadores pessoais. 
     As reservas de mercado tiveram origem em dois organismos do governo federal. No primeiro deles, o Itamaraty, por influncia do embaixador Paulo Cotrim e de diplomatas especializados em tecnologia e poltica industrial. O segundo foi a Comisso de Coordenao das Atividades de Processamento Eletrnico (Capre), criada em 1972, sob o governo Medici, no Ministrio do Planejamento. Com a crise do petrleo e suas consequncias na balana comercial brasileira, o controle da importao de computadores ficaria ainda mais rgido. 
     Sucessivamente, tecnocratas, acadmicos e militares se tornariam os grandes formuladores das linhas da poltica setorial. O pas iniciou, ento, a escalada protecionista, que iria muito alm do controle das importaes e evoluiu para um projeto mais ambicioso de criao de uma indstria nacional de computadores. 
     Em 1979, no incio do governo Figueiredo, a Capre foi extinta e criou-se a Secretaria Especial de Informtica (SEI), dirigida, principalmente, pela chamada "comunidade de informaes"  que era como se intitulavam os militares do antigo Servio Nacional de Informaes (SNI). O pas passou a viver, em especial nos setores industriais de informtica e telecomunicaes, um perodo de nacionalismo exacerbado. A xenofobia se transformou, curiosamente, no guarda-chuva ideolgico que abrigava gente to diferente como os militares do SNI, polticos e partidos de extrema esquerda, acadmicos da rea tecnolgica, lderes estudantis, sindicatos operrios e empresrios beneficiados pela reserva de mercado. Era um saco de gatos. 
     Para alcanarem a autonomia tecnolgica e industrial do pas, os militares apostaram tudo no mercado interno e anunciaram que o Brasil poderia se tornar, em dez anos, "uma das maiores potncias de informtica do planeta". No deu em nada. Na verdade, a poltica industrial adotada poderia ter produzido melhores resultados se o pas tivesse investido prioritariamente em trs reas fundamentais: 1) em pesquisa e desenvolvimento tecnolgico; 2) na criao de uma indstria nacional de componentes eletrnicos; e 3) na formao de recursos humanos de alto nvel. 
     Alguns pases  entre os quais a Coreia do Sul, o Japo e a China  utilizaram com sucesso estratgias protecionistas temporrias para desenvolver sua indstria de computadores e da eletrnica em geral. No entanto, s conquistaram autonomia industrial e tecnolgica com investimentos macios em educao, na formao de mo de obra altamente qualificada e em pesquisa e desenvolvimento. No caso brasileiro, os preos proibitivos do computador nacional e o prolongamento excessivo da reserva de mercado acabaram por estimular de forma explosiva o contrabando de produtos de informtica, inclusive perifricos e componentes  e aberraes inventivas como o Mac da Periferia. 
     Diante desse quadro, milhes de usurios passaram a defender o fim do protecionismo em geral e, em especial, o fim da reserva de mercado, transformada at em bandeira de campanha do ento candidato  Presidncia da Repblica Fernando Collor de Mello, nas eleies de 1989. Vitorioso, Collor extinguiu a Secretaria Nacional de Informtica e acabou com a reserva de mercado, em outubro de 1992. Terminava ali uma proibio daninha. Game over, mas recomenda-se no baixar a guarda quando se trata de pr em prtica polticas econmicas intervencionistas como a da defunta reserva de mercado. Em troca da desonerao de aparelhos celulares produzidos no Brasil, o Ministrio das Comunicaes editou uma portaria pela qual os aplicativos tero de ser produzidos por aqui e "possuir utilidade pblica: ser de servios governamentais; ou ser escolhidos por concurso"  mesmo que sejam ruins, embora alguns possam ser excelentes. Por trs da antiga ideia de fomentar os produtores nacionais, podemos caminhar para um aplicativo da periferia. 
Ethevaldo Siqueira  jornalista especializado em tecnologias digitais.

ENFIM, NO PRIMEIRO MUNDO
O salto s foi possvel aps o banimento da xenofobia no setor

Quantidade de computadores instalados
BRASIL 1991: 8000.000
Brasil 2013: 118 milhes
Estados Unidos 1991: 54 milhes
Estados Unidos 2013: 378 milhes
Japo 1991: 10,5 milhes
Japo 2013: 101,9 milhes

Computadores per capita
BRASIL 1991: 0,006
Brasil 2013: 0,6
Estados Unidos 1991: 0,21
Estados Unidos 2013: 1,2
Japo 1991: 0,08
Japo 2013: 0,79

Faturamento da indstria nacional do setor (em dlar)
BRASIL 1991: 7 bilhes
Brasil 2013: 20 bilhes
Estados Unidos 1991: 37,1 bilhes
Estados Unidos 2013: 39,9 bilhes
Japo 1991: 18,8 bilhes
Japo 2013: 192 bilhes

Salas de aula com computadores dedicados ao ensino
BRASIL 1991: 0,5%
Brasil 2013: 82%
Estados Unidos 1991: 96%
Estados Unidos 2013: 100%
Japo 1991: 64%
Japo 2013: 97,7%

Fontes: Centro de Tecnologia de Informao Aplicada da FGV-Eaesp, Relatrio da Computer Industry Almanac Inc. 1993 e 2012, Associao Brasileira da Indstria Eltrica e Eletrnica (Abinee), consultoria Gartner, Ministrio de Economia. Comrcio e Indstria do Japo, Ministrio de Educao, Cultura, Esportes, Cincia e Tecnologia do Japo, Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informao e da Comunicao e Departamento de Educao dos Estados Unidos.

O BOM EXEMPLO DA COREIA DO SUL
Como o Brasil, o governo coreano fechou as portas para computadores estrangeiros. Os asiticos, no entanto, tiraram proveito da medida e consolidaram uma indstria de eletrnicos forte, que hoje  um dos motores econmicos do pas. A chave foi estabelecer um prazo fechado de cinco anos  entre 1982 e 1987  e metas claras de competitividade. "Isso forou as empresas coreanas a se equipararem ao mercado internacional para no perder espao para os importados depois da abertura. O que no aconteceu no Brasil, onde a indstria ficou acomodada", explica Eduardo Kiyoshi Tonooka, economista da LCA Consultores. O governo tambm investiu pesado na formao de profissionais qualificados e em atividades de pesquisa e desenvolvimento. A Samsung, fundada como uma fbrica de alimentos em 1938, beneficiou-se da medida e lanou seu primeiro PC em 1983. Hoje,  a empresa de tecnologia com a maior movimentao de dinheiro no mundo. 


10. TECNOLOGIA  A TEIA SE EXPANDE

O INCIO DO DOMNIO TOTAL DA WEB
1 de maro de 1995
H dezoito anos, a internet comeava a dar indcios da formidvel importncia que viria a ter no dia a dia de todos os cidados. Com 40 milhes de usurios, a rede crescia 900% ao ano. VEJA empenhou-se, ento, para apresent-la ao leitor brasileiro em uma reportagem de capa que se estendeu por onze pginas surpreendentes. Termos como e-mail, mailing list, modem e www eram ainda obscuros para a maioria das pessoas e, por isso, foram descritos minuciosamente pela revista. O futuro, enfim, havia chegado.

TRECHO "Hoje, o computador pode comunicar-se com outros computadores atravs de uma linha telefnica. Basta que a pessoa instale no seu micro um pequeno aparelho chamado modem, que transforma os cdigos digitais para o trfego no fio, e est tudo pronto para a maior viagem que a tecnologia j ofereceu ao ser humano. O Brasil tem 50.000 pioneiros plugados na internet e ainda est tropeando na porta de entrada dessa aventura. 
____________________

Ela est em toda parte. Em menos de vinte anos, a internet evoluiu de maneira estrondosa: deixou de ser um territrio habitado por cientistas para virar o principal meio de comunicao de qualquer ser humano. J no se limita aos computadores: invadiu smartphones, tablets, culos, geladeiras...
FILIPE VILICIC E VICTOR CAPUTO

     Quando VEJA apresentou a internet a seus leitores, em 1995, era preciso explicar o que era um site ou um e-mail. Tambm era necessrio elucidar para que ela servia: comunicar-se, ver imagens, fechar negcios. O universo virtual era um territrio ainda pouco explorado, mesmo pelos j iniciados. H dezoito anos, a web era formada por 10.000 sites e 40 milhes de usurios (chamados ento de "internautas"), sendo apenas 50.000 no Brasil. A expresso "internautas" deixou de fazer sentido, assim como explicar o que  um e-mail, na medida em que a internet se tornou um mundo habitado por bilhes  e no s por um punhado de aventureiros. Hoje, h 88 milhes de brasileiros on-line, o dobro dos indivduos conectados em todo o planeta em 1995. No mundo, trs em cada dez pessoas tm acesso  rede. O virtual evoluiu ao deixar de ser apenas uma plataforma de troca de mensagens para se tornar uma gora pblica, de distncias encurtadas e na qual todos podem expressar sua opinio (veja o quadro abaixo). A web tambm passou a interligar mquinas variadas, como geladeiras e carros, no que ficou conhecido como a internet das coisas. A avanada inteligncia artificial desses equipamentos os deixou aptos a, por assim dizer, pensar sozinhos: guiados por algoritmos complexos, eles tomam decises como alertar seu dono de hbitos no saudveis ou da localizao de um restaurante por perto na hora do almoo. Em 1999, Neil Gershenfeld, icnico professor de computao do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), apostou: "A World Wide Web foi o gatilho para a verdadeira exploso que haver quando as coisas comearem a usar a internet". Chegou esse momento. 
     A internet nasceu nos anos 60, em laboratrios militares dos Estados Unidos. Naquele tempo, era chamada de Arpanet e servia para conectar, por meio de cabos de telefonia, computadores do governo. Assim, eles compartilhavam arquivos secretos que podiam ser acessados de qualquer mquina ligada  rede. No pice da Guerra Fria, o objetivo era preservar documentos importantes, mesmo se a capital, Washington, fosse atacada. A internet comeou a se tornar comercial logo depois, mas o sistema era difcil de ser compreendido pelo cidado comum: as conexes tinham de ser feitas por meio de cdigos de computadores. A web passou a ser um ambiente fcil de ser navegado em 1989, com a criao do www, sigla para World Wide Web. O ingls Tim Berners-Lee, especializado em cincia da computao, na poca funcionrio da Organizao Europeia para Pesquisa Nuclear, criou o www para facilitar a troca de documentos entre cientistas espalhados pelo planeta. Com isso, fez a primeira interface grfica para navegao on-line: ou seja, a internet como existe hoje. 
     A partir dos anos 90, o crescimento foi estrondoso. Entre 1995 e 2013, o nmero de indivduos on-line multiplicou-se por sessenta  no Brasil, o crescimento foi ainda maior, de quase 2000 vezes. Nos prximos dez anos, 3 bilhes de pessoas off-line devem se conectar, e quase todo ser humano estar on-line na dcada de 30. "Inclu a palavra world (em ingls, mundo) em www justamente pela ambio de que um dia essa rede abraaria toda a Terra", explicou Berners-Lee em entrevista a VEJA. "Mas mesmo as previses mais ambiciosas, feitas nos anos 80 e 90, no calculavam a abrangncia que hoje tem o mundo virtual, composto de smartphones, relgios, roupas e todo tipo de coisa." Se em 1995 os 10 milhes de dispositivos com acesso  internet eram computadores tradicionais, os PCs e Macs, hoje 20% dos 9 bilhes de aparelhos on-line so smartphones, tablets e outras inovaes que pem em xeque a ideia de que um computador  uma mquina com mouse, teclado e tela, estacionada em cima de uma mesa de trabalho. 
     Tem acesso ao mundo virtual qualquer aparelho dotado de um IP (sigla em ingls para protocolo da internet). Trata-se de uma sequncia de nmeros que compe o endereo virtual de uma mquina, como se fosse um CEP de uma casa.  pelo IP que se sabe toda vez que um computador acessa a rede, entra em um site, envia um e-mail. Desde a dcada de 90, a verso mais utilizada do IP  a IPv4. Nela, cada nmero de IP  composto de 32 dgitos (cada um representa um bit na internet), o que possibilita compor 4,3 bilhes de sequncias diferentes. Na prtica, com o IPv4  possvel conectar 4,3 bilhes de aparelhos. Parecia muito em 1981, quando essa verso foi criada, ou em 1995, quando somente 10 milhes de computadores estavam on-line. Hoje, falta IP: no daria para colocar um smartphone na mo de cada ser humano. A soluo foi a criao de uma nova verso do protocolo da internet. Lanado no ano passado, o IPv6 aumentou o nmero de dgitos usados para 128, o que, na prtica, representa que 340 trilhes de trilhes de trilhes de IPs podem ser criados (confira o quadro ao lado). "Isso  essencial para dar incio a uma nova era, na qual o papel principal da internet no ser apenas conectar pessoas, mas, sim, permitir que mquinas administrem nosso mundo", afirma o cientista da computao brasileiro Mrio Faria, conselheiro da Fundao Bill e Melinda Gates e do MIT. "A possibilidade de deixar on-line qualquer tipo de coisa e coletar dados produzidos por essas coisas tem revolucionado nossa vida", observa ele. 
     J h IPs que do acesso  internet em tnis, pulseiras, relgios e culos, como o famoso Google Glass, que coloca  frente dos olhos uma tela translcida com funes parecidas s de um tablet. Existem geladeiras de marcas como LG que detectam automaticamente se falta comida ou bebida em seu interior e sugerem receitas de pratos para o jantar. Algumas, ainda experimentais, realizam at compras em sites: se "percebe" que acabou o estoque de gua mineral, por exemplo, um programa pode, sem interferncia humana, encomendar um lote novo  e pagar a encomenda. "O futuro ser repleto desses aparelhos que conhecem nossa rotina, nossos gostos, e, por isso, vo organizar a parte burocrtica da vida", diz Faria. "Gastamos muito tempo dirigindo o carro, criando rotas no GPS, indo ao mercado, fazendo compras no shopping. Se as mquinas tomarem conta disso, conseguiremos nos dedicar ao que mais importa, como o trabalho, a famlia e o lazer", acredita. 
     Desde 2008 h mais objetos on-line do que pessoas navegando pela internet. Estima-se que at 2020 haver 24 bilhes de dispositivos conectados, mais que o triplo da atual populao mundial. H planos para inserir chips com IP at em clulas e rgos humanos, para que mdicos acompanhem a rotina de pacientes e possam, por exemplo, detectar um ataque cardaco antes mesmo que ele ocorra. O caminho da internet  tornar-se uma teia que liga tudo e todos.
COM REPORTAGEM DE HENRIQUE CARNEIRO

TO LONGE, TO PERTO
A internet aproximou pessoas, o que obriga a uma reviso da famosa Teoria dos Seis Graus de Separao, segundo a qual um indivduo consegue contatar qualquer outro utilizando apenas seis laos de amizade. Cientistas testaram a tese no Facebook e descobriram que a rede social diminuiu em dois passos essa distncia.

1- A experincia foi realizada com 721 milhes de usurios do Facebook
2- Foram analisados mais de 60 bilhes de ligaes entre essas pessoas
3- O resultado revelou que um usurio est separado de outro que no pertence a seu crculo de amigos por quatro laos de amizade. Isso significa dizer que:
Voc conhece...
1...algum que conhece...
2...algum que conhece...
3...algum que conhece...
4... a pessoa com quem voc quer falar  o destino final pode ser uma celebridade como Brad Pitt, ou um annimo
4- O teste mostra a reduo de dois graus de separao na distncia entre as pessoas.

ANTES, AGORA E DEPOIS
A web em 1995  ano em que VEJA apresentou a internet em sua capa, com a chamada "A rede planetria em que voc ainda vai se plugar" , hoje e como ser em 2020

Em nmero de usurios
1995: Mundo 40 milhes; BRASIL 50.000
2013: 2,4 bilhes; BRASIL 88 milhes
2020: 5 bilhes; BRASIL 147 milhes

Em modo de acesso
1995: 10 milhes de dispositivos conectados, todos computadores tradicionais
2013: 9 bilhes de dispositivos conectados, 20% deles smartphones e tablets 
2020: 24 bilhes de dispositivos conectados, metade deles smartphones, tablets e outros aparelhos mveis, como culos computadorizados

Em produo
1995: 0,000005 exabyte criado ou armazenado por dia na internet. Um arquivo atual de msica digital
2013: 2,5 exabytes criados ou armazenados por dia na web. Metade do que a civilizao produziu desde o incio da histria at 2003
2020: 130 exabytes criados ou armazenados por dia na internet. O dobro de tudo o que j foi escrito, em todas as lnguas, desde que aprendemos a escrever

Em quantidades de sites
1995: 10.000. Os mais acessados AOL, WebCrawler, NETSCAPE
2013: 643 milhes. Os mais usados facebook, Google, YouTube
2020: 1,8 bilho

Em horas de vdeos vistos por ms
1995: ZERO (no existia o streaming, tecnologia de transmisso sob demanda ou ao vivo de vdeos pela web)
2013: 6 bilhes (*S no YouTube)
2020: 48 bilhes (*S no YouTube)

A fronteira da rede
O nmero de aparelhos on-line  limitado pela quantidade de IPs  sequncias de nmeros que funcionam como um registro nico de cada mquina conectada  possveis de ser criados
1995: s estava disponvel a quarta verso do IP, ainda hoje a mais popular e que utiliza sequncias de 32 dgitos, o que possibilita conectar 4,3 bilhes de aparelhos.
Hoje, 93% dessa capacidade j esta ocupada. No daria para colocar um smartphone na mo de cada pessoa.
2013: a sexta verso do IP usa sequncias de 128 dgitos, o que permite criar 340 trilhes de trilhes de trilhes de IPs.  o suficiente para colocar um microchip em cada uma dos 100 trilhes de clulas do corpo de cada um dos 7 bilhes de indivduos do mundo.


11. FUTEBOL  QUEM CHORA A PTRIA DE CHUTEIRAS?

O QUARTETO FANTSTICO
16 de junho de 1982
Para alm de registrar o sentimento de confiana do pas na seleo que participaria da Copa do Mundo na Espanha, a reportagem de VEJA mostrava em detalhes a rigorosa preparao do time de Tel Santana e a excelncia dos seus grandes craques: Zico, Scrates, Falco e Jnior. O Brasil, como se sabe, seria eliminado pela Itlia de Paolo Rossi. No entanto, o escrete montado por Tel passaria  histria do esporte como um dos mais extraordinrios que j disputaram o Mundial de futebol, apesar da derrota.

TRECHO Na mesma Sevilha de Murillo e Velsquez, cuja histria milenar remonta aos fencios no sculo X antes de Cristo, onze homens, vestidos com o mstico uniforme amarelo, azul e verde, sob o comando tcnico de Tel Santana, tero sua primeira batalha pela conquista da quarta Copa para o Brasil e, mais do que isso, pela reabilitao do futebol brasileiro, severamente arranhado pela mediocridade exibida nos dois ltimos campeonatos mundiais. 

O Brasil precisou de trs dcadas, depois da derrota agridoce no Mundial de 1982, para aprender, na vitria da Copa das Confederaes deste ano, a separar o jogo bonito da feiura poltica que s vezes o cerca  sem perder a paixo pela bola.
SRGIO RODRIGUES

     Alm do uniforme da Topper e da cabeleira indomvel de Scrates, Jnior, Falco e Zico, alguma coisa na edio de VEJA que circulou s vsperas da Copa do Mundo da Espanha, em 1982, deixa claro que estamos numa terra estrangeira chamada passado. Difcil de isolar,  um sopro que percorre a edio, da Carta ao Leitor assinada pelo diretor adjunto de redao, Elio Gaspari, ao texto fino crispado de emoo do subeditor Ricardo Setti. "Como acontece a cada quatro anos, o Brasil vai  guerra", afirma a primeira. E acrescenta: "A partir desta segunda-feira, se o presidente Joo Figueiredo restaurasse a monarquia, ningum perceberia e, se percebesse, discutiria com mais paixo o preenchimento da ponta-direita por Tel do que a personalidade do novo rei". 
     Corta para a Copa das Confederaes sediada no Brasil no ltimo ms de junho. A cada partida, do lado de fora dos belos estdios recm-construdos ou reformados, manifestantes entraram cm guerra com a polcia. A insistncia de Luiz Felipe Scolari na escalao de Hulk na ponta-direita, embora polmica, nada tinha a ver com os protestos. Vaiada na abertura do torneio, Dilma Rousseff no restaurou a monarquia, mas foi o esprito monrquico da Fifa  aliado  submisso do governo brasileiro e aos gastos bilionrios da decorrentes  que, na esteira das manifestaes iniciadas pouco antes, exps uma novidade na relao do povo com a seleo. Por no entend-la, Pel criticou os protestos, cobrou apoio ao time ("nosso sangue") e acabou pedindo desculpas no Facebook. A novidade lembra o princpio da separao entre igreja e estado: pela primeira vez a seleo triunfou sem que o governo da vez pudesse reivindicar um naco da glria. Pelo contrrio: prevaleceu a sensao de que, se os jogadores venceram bonito, os polticos perderam feio. 
     As metforas blicas e a confuso entre equipe esportiva e nao vm de longe. Atribui-se ao duque de Wellington, comandante das foras britnicas, a seguinte explicao para a decisiva vitria sobre Napoleo em junho (ms de Copa do Mundo!) de 1815: A Batalha de Waterloo foi vencida nos campos esportivos de Eton". Se o esporte praticado no tradicional colgio ingls ainda no era o futebol como o conhecemos, um eco da mesma ideia aparece na crnica de 1976 em que Nelson Rodrigues definiu a seleo como "a ptria em cales e chuteiras, a dar rtilas bolinadas em todas as direes". Era o tempo da ditadura militar, que Nelson apoiava, mas no governo de Joo Goulart uma lgica semelhante j tinha levado o cronista Armando Nogueira a se referir  Copa de 1962, no Chile, como "VII Guerra do Futebol Mundial". 
     A "guerra" prevista por VEJA em 1982, no perodo final da ditadura, no tinha trao de justificao do poder. Limitava-se a registrar com realismo o transe de um pas que suspendia suas demais preocupaes para torcer pela mais brilhante gerao de jogadores a surgir por aqui desde a conquista do tricampeonato, em 1970  com destaque para os modelos da foto de capa, chamados na reportagem, com propriedade, de "quatro craques resplandecentes". Registre-se que s Falco no atuava no Brasil (estava desde 1980 no Roma) e que todos tinham identificao profunda com seu clube e sua torcida. Do ponto de vista de hoje, levando-se em conta a gigantesca mquina de negcios em que o futebol globalizado se transformou nas ltimas dcadas,  fcil apontar o que havia de romantismo naquela viso de mundo. 
     Ao perder de 3 a 2 para a Itlia de Paolo Rossi, a equipe de Tel Santana conheceu o que Waterloo tinha sido para Napoleo. O tetracampeonato ficaria adiado at 1994, nos Estados Unidos, quando a taa acabou erguida pela seleo aplicada e opaca de Carlos Alberto Parreira. Alm do saudvel distanciamento crtico provocado pelo big business que a Fifa comanda,  provvel que derrotas injustas e vitrias agridoces como aquelas faam parte do processo de amadurecimento  poltico, cvico, esportivo  que culminou neste 2013 em que o Brasil provou ser capaz de, sem perder a paixo pelo futebol, separar o jogo bonito da feiura que s vezes o cerca. 
Srgio Rodrigues  colunista do site de VEJA e autor do romance O Drible


12. SADE  UM DRAMA QUE NO VAI SE REPETIR

UMA SOMBRA ASSUSTADORA
10 de agosto de 1988
Ao longo de dez pginas, VEJA trouxe  tona o comovente cotidiano de pacientes e mdicos das enfermarias dos maiores hospitais de tratamento de soropositivos do pas. Em meio ao drama fsico daqueles a quem a doena, a cada dia, roubava um pouco mais de vida  provocando revolta, dor, mas tambm, muitas vezes, uma teimosa energia para enfrentar a morte , a reportagem de capa da revista sublinhava o estigma que cercava os portadores de aids. Como a doena acometia um nmero maior de homossexuais e viciados em drogas, os doentes costumavam ser vistos frequentemente como culpados e no vtimas de um mal irrefrevel.

TRECHO "Distribudos entre o 1 e o 6 andar, os pacientes do Emlio Ribas, que nos momentos de maior lotao j ocuparam oitenta leitos, aprenderam a conviver com um tcito cdigo de sinalizao interna. 'Quando sobe um biombo de lenol na cama ao lado, o paciente percebe que o companheiro de quarto est morrendo', diz Cislene Gomes Heberli, uma psicloga de 26 anos que presta servios no hospital. E sempre que isso ocorre todos os doentes que testemunham a morte sofrem violentas recadas'." 
__________________

No fim dos anos 80, ter aids equivalia a receber uma sentena de morte, aliada a um insuportvel estigma. O risco da baixa expectativa de vida foi superado. O julgamento moral, entretanto, embora em menor escala, permanece.
CAROLINA MELO

     Passaram-se apenas 25 anos, mas que significam, para um nmero ainda crescente de pessoas, a exata diferena entre a vida e a morte. Em 1988, quando VEJA dedicou uma reportagem de capa ao sofrimento dos infectados pelo vrus HIV, havia um nico medicamento  em fase experimental e recm-chegado ao Brasil  capaz de prolongar a expectativa de vida dos soropositivos: o antiviral AZT. Os doentes precisavam tomar at trinta comprimidos por dia  e o AZT estava longe de ser barato  para alcanar uma sobrevida de, em mdia, um ano. A partir de 1997, com o surgimento do coquetel antiaids, uma combinao de trs medicamentos de classes diferentes que atuam em fases distintas da replicao do vrus, o quadro mudou. Hoje, h cinco classes desses compostos e 32 remdios contra o HIV. Bastam trs comprimidos por dia. Alis, nos Estados Unidos, j existe uma plula nica com a dosagem diria necessria. Com isso, a vida deixou de ter seu prazo de validade determinado pelo HTV. Se entre as dcadas de 80 e 90 o nmero de pessoas que morreram em decorrncia da aids aumentou 220%, nos anos seguintes, at 2011, o total de mortos cresceu 20%.  um patamar ainda elevado  mas no se pode negar que a queda seja expressiva. 
     Dos sete doentes entrevistados para a reportagem de 1988, a revista s conseguiu localizar uma pessoa viva  que pediu para no dar entrevista , numa prova evidente de que, mesmo depois de tantas vitrias da medicina contra a aids, no campo moral os avanos foram tmidos. Ter aids continua sendo viver estigmatizado. Trs pessoas morreram; quanto s outras trs, a reportagem no conseguiu descobrir o paradeiro devido  precariedade dos pronturios antigos  muitas vezes sem nome completo nem telefone para contato , e possivelmente tambm pelo preconceito existente na poca em relao aos infectados. " provvel que tenham morrido. Naquele tempo, os soropositivos que chegavam aos hospitais j vinham com algum sintoma grave e viviam por mais alguns meses. Era assim que ficavam sabendo que portavam o HIV. A nica coisa que podamos fazer era tratar os sintomas e dar alguma qualidade de vida aos pacientes", diz a infectologista Marinella Della Negra, que trabalha h quarenta anos no Hospital Emlio Ribas, em So Paulo. Ela foi a mdica responsvel por alguns dos infectados presentes na reportagem. 
     As causas de morte mais comuns dos pacientes eram pneumonia  um tipo especfico contrado pelos soropositivos , tuberculose e herpes. Contudo, at uma simples gripe podia se tornar letal. "A grande contradio do HIV  que, quando se ativa o sistema imunolgico contra o vrus, o prprio HIV  ativado e passa a atacar as clulas de defesa, deixando a pessoa mais suscetvel a outras doenas", explica o infectologista Artur Timerman, do Hospital Edmundo Vasconcelos, em So Paulo. Na impossibilidade de erradicar o vrus do organismo, a funo do AZT era impedir a  replicao do HIV e manter as clulas de defesa ativas para que o soropositivo no contrasse infeces. 
     Graas ao remdio, Sheila  a nica criana presente na reportagem de 1988  sobreviveu o suficiente para ver sua vida mudar. Abandonada pela me biolgica aos 8 meses no Hospital Emlio Ribas, ela foi criada por mdicos, enfermeiros e psiclogos da instituio at ser adotada por um casal de paulistanos aos 3 anos  dois anos depois de aparecer nas pginas de VEJA. "Quando falamos sobre nossa deciso aos mdicos, eles nos chamaram de loucos e disseram que no fazia sentido levar para casa uma menina que viveria somente mais quatro meses", lembra Snia Gomes, a me adotiva de Sheila. Durante os trs anos seguintes, a garota teve uma vida parecida com a de qualquer criana de sua idade. Como a maioria dos sobreviventes da aids, a menina s no conseguiu se livrar do preconceito. Os pais tiveram de recorrer  Justia para matricular Sheila em uma escola particular e, mesmo assim, sob protesto dos pais dos colegas de turma, que ameaaram tirar os filhos da instituio. A me de uma das crianas foi alm das reclamaes: manchou com tinta vermelha a toalha que Sheila carregava, insinuando que ela havia sangrado e, portanto, oferecia risco s outras crianas. A garota, no entanto, continuou estudando na mesma escola e participou de todos os eventos de sua classe, inclusive das apresentaes de dana. 
     Em fevereiro de 1993, quando iria comprar material para o ano letivo, Sheila passou mal e foi internada com pneumonia. No caminho para o hospital, passou em frente  escola e disse aos pais que no voltaria mais para l. Morreu no dia seguinte, na vspera do incio das aulas. "Ela falava sobre a morte como nenhuma outra criana. Todos os meses, ia ao hospital para se medicar e pedia para visitar os antigos amigos internados, porm alguns no estavam mais vivos. Eu ficava sem jeito de explicar isso, mas ela se antecipava e me perguinava se eles tinham morrido", diz o pai adotivo, Srgio Cortopassi. Dois anos depois da morte de Sheila, o casal decidiu adotar outra menina, Llian, hoje com 18 anos. "Cresci ouvindo falar bem de minha irm. Queria muito ter convivido com ela", relata a jovem. 
     Se houvesse resistido mais quatro anos, Sheila iniciaria o tratamento com o coquetel antiaids. "A histria mudou com a chegada da terapia antirretroviral trplice forte. Os soropositivos tiveram a chance de vislumbrar uma vida melhor  e longa", afirma o infectologista David Uip, secretrio de Sade do Estado de So Paulo. Hoje, os pacientes nem precisam ser internados  em 1988, o Hospital Emlio Ribas era o nico do mundo a tratar cinquenta soropositivos em regime de internao. 
     Nas ltimas duas dcadas surgiram tambm exames essenciais para o tratamento da doena. Um deles  capaz de detectar a carga viral no organismo, ou seja, o nmero de cpias do HIV no sangue. Dessa maneira,  possvel saber exatamente quanto o vrus se replicou. Outro exame mapeia o material gentico do HIV e prev eventuais mutaes, o que permite aos mdicos antecipar-se a uma possvel resistncia do vrus a um tipo de medicamento. 
     Os avanos beneficiaram ainda os casais soropositivos que desejavam ter um filho e temiam que ele nascesse contaminado. Quando Sheila veio ao mundo, o risco de transmisso do vrus por meio da me era de 50%. Esse nmero foi reduzido para 10% na dcada de 90. Atualmente, se uma mulher portadora do HIV engravidar, o risco de a criana nascer com HIV positivo  menor que 1%, desde que o tratamento seja seguido corretamente ao longo de toda a gestao. Depois do nascimento,  s substituir o leite materno por uma frmula de leite em p e garantir que o beb tome antirretrovirais durante o primeiro ms de vida. Atualmente, 313.000 pessoas tm acesso aos medicamentos oferecidos pelo SUS. 
     Na Universidade de So Paulo, est em curso um projeto para testar uma vacina antiaids em macacos. "Sinto que a cura ser encontrada em breve. Na dcada de 80, cheguei a ser questionado pela direo do hospital onde trabalhava sobre o nmero elevado de atestados de bito  eram uns dez por ms. Hoje, s morre quem no se cuida", conclui Artur Timerman. 
     "As pessoas ainda tm vergonha e se sentem culpadas por se deixar infectar. O medo de revelar o diagnstico  famlia e aos amigos continua", diz a psicloga Helosa Helena de Arajo Campos, que trabalhou nos ltimos 25 anos no Hospital Emlio Ribas  ela foi ouvida na reportagem de 1988  e se aposentou em janeiro passado. A soluo para esse problema talvez chegue apenas com a cura da doena. 


13. SADE  ACHAVA QUE NO PASSARIA DOS 30 ANOS
Em 1988, o americano Greg Louganis deixou o mundo boquiaberto ao conquistar a medalha de ouro nos saltos ornamentais dos Jogos de Seul depois de superar um duro revs para qualquer atleta. Na fase de classificao, ele bateu a cabea na ponta do trampolim de 3 metros e ficou com um corte que foi suturado sem anestesia. O machucado no o impediu de se classificar e depois vencer a final. Um fato excepcional dessa conquista, no entanto, s foi revelado sete anos mais tarde e contado em detalhes em uma autobiografia: o atleta descobrira que era portador do vrus do HIV pouco antes dos Jogos. Hoje, com 53 anos, na condio de homossexual assumido e de cone da luta contra a aids, ele falou a Alexandre Salvador, de VEJA, por telefone, de sua casa na Califrnia.

Como foi receber o diagnstico na vspera dos Jogos Olmpicos? 
Foi um choque, mas sinceramente no sabia o que tudo aquilo significava. Contagem de clulas, carga viral. Era um vocabulrio completamente estranho para mim. De acordo com meu mdico na poca, a contagem de clulas responsveis pelo sistema imunolgico estava baixa, o que indicava certo perigo. Ningum falava quanto tempo me restava, mesmo porque ningum tinha uma resposta precisa para isso. Mas eu sabia que ser diagnosticado com HIV era uma sentena de morte. O problema era ainda maior porque eu no podia falar abertamente sobre o assunto. Durante minha infncia e adolescncia traumticas (Louganis sofria de um quadro crnico de depresso desde criana e tentou o suicdio algumas vezes), j pensava que no passaria dos 30 anos, e aquilo era, de certa forma, uma confirmao dessa minha previso.

O medicamento disponvel naquele tempo no garantia uma sobreviria to grande. Como voc aguentou at o surgimento de tratamentos mais eficazes? 
Candidatei-me a uma dezena de estudos para o tratamento do HIV. Como em todo experimento cientfico desse tipo, no era possvel saber se eu fazia parte do grupo que de fato recebia o medicamento ou se estava tomando placebo. Aquilo era uma montanha-russa emocional. Sabia que estava sob efeito dessas substncias por causa dos efeitos colaterais, que eram muito violentos. A sensao era horrenda. Acredito que foi muito importante estar envolvido com o esporte. Os treinamentos e as competies foram meu santurio nesse perodo. Ajudaram meu corpo a responder bem a essas situaes.

Voc acredita que agora  mais fcil receber o diagnstico? 
Se existe alguma vantagem em receber essa notcia hoje,  graas aos avanos gigantescos na rea de tratamento e identificao do tipo de vrus. Mas o estigma permanece. Quanto mais educao as pessoas tiverem sobre o assunto, menor ser o preconceito. Mesmo onde existe mais conhecimento sobre a doena, receber o diagnstico ainda  uma bomba. Acompanho algumas consultas de garotos que so informados pela primeira vez sobre o HIV e vejo quo devastadora  a notcia para eles.

Como  sua rotina atual? 
Acordo por volta das 4 da manh, vou para a academia s 7, fao uma hora de spinning e, na sequncia, sigo para a ioga. Em relao aos medicamentos, tomo pela manh e  noite, alm de fazer sesses de acupuntura uma vez por semana. Minha contagem de clulas ligadas ao sistema imunolgico beira 300. Esse nmero j esteve muito mais baixo, na casa de onze.

A previso de morrer antes dos 30 anos no vingou. Voc acha que alcanar os 60? 
Da ltima vez, errei por muito a minha estimativa, por isso no vou dar nenhum chute. Quero aproveitar a vida.  


14. COMPORTAMENTO  AS DUAS FACES DA TOLERNCIA

TERMMETRO DO PRECONCEITO
12 de maio de 1993
Um levantamento indito realizado no pas e publicado com exclusividade por VEJA trouxe para os leitores, numa reportagem de oito pginas, a viso dos brasileiros a respeito dos homossexuais. A pesquisa ouviu moradores de todas as regies do pas e de diferentes classes sociais. Como atestou a revista, em razo da metodologia, os resultados funcionavam "como um termmetro dos humores das grandes camadas da populao".

TRECHO "Filho de um caminhoneiro e uma dona de casa, o cabeleireiro paulista Mauro Henrique de Oliveira, 28 anos, ganhou um ultimato do pai quando passou a andar de brinco. 'Levei uma surra que nunca esqueo. Depois, meu pai me avisou que quando eu fizesse 18 anos teria de sair de casa'. Alm das presses da famlia, Mauro viveu a crueldade das ruas. Nas aulas de educao fsica era rejeitado pelos colegas. Ningum queria no seu time um garoto franzino, tmido e que falava de um modo delicado. Aos sbados, quando saa com roupas que chamavam ateno  calas apertadas, brincos e camisas floridas , era esperado na rua pelos vizinhos de bairro que o escolhiam como alvo de bolas de futebol sujas."
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SIBELLE PEDRAL
     So dois pases: o do passado e o do presente, e apenas vinte anos a separ-los. A boa notcia  que o atual se revela mais tolerante do que o antigo. Em 1993, VEJA publicou com exclusividade uma pesquisa sobre o modo como os brasileiros encaravam uma incontornvel realidade social  a homossexualidade. A pergunta a que a revista pretendia responder era: o que  ser gay no Brasil? A pedido de VEJA e do Departamento de Pesquisa e Inteligncia de Mercado da Editora Abril, em julho passado o Ipsos MediaCT retomou a sondagem original para responder  mesma pergunta. Os resultados, como se ver nesta reportagem, traduzem um inegvel amadurecimento do pas: o preconceito diminuiu, e muito, sobretudo na esfera pblica. Um exemplo: 79% concordariam hoje com a eleio de um presidente homossexual; em 1993, 56% no concordavam com isso. Outro dado significativo: h vinte anos, 56% dos entrevistados disseram que mudariam sua conduta com um colega se descobrissem que ele era homossexual  na nova pesquisa, esse nmero caiu para 19%. No mbito privado, entretanto, o progresso, embora exista,  mais modesto. Observe-se: h duas dcadas, 79% responderam que ficariam tristes se tivessem um filho ou uma filha homossexual; agora, o porcentual caiu para 37% (veja o quadro comparativo na pg. 238).  uma conquista e tanto, ningum duvida. H, contudo, ainda um longo caminho a percorrer nessa frente  quando a questo entra na prpria casa de cada um. 
     Na poca da primeira sondagem, metade dos brasileiros rejeitava mdicos e polticos gays; seis em cada dez entrevistados acreditavam que os homossexuais haviam espalhado a aids pelo mundo; no havia o coquetel contra a sndrome nem parada gay. Naquele pano de fundo hostil, o professor Antonio Reis, o Toni, de Curitiba, ento com 28 anos, e seu companheiro, o tradutor David Harrad, 35, nascido na Inglaterra  cuja foto ilustrava a abertura da reportagem de 1993 . comemoravam trs anos de convivncia. Embora no pudessem se casar, usavam aliana e sonhavam adotar uma criana. David vivia sob a ameaa de deportao, j que a unio que mantinha com Toni no era reconhecida pela lei brasileira. Em 2013, Toni e David festejaram 23 anos de vida em comum. Tm um filho, Alyson, adotado em 2012, um ano depois de firmarem em cartrio um contrato de unio estvel. Pretendem casar-se no civil em breve. Toni, David e Alyson so, por assim dizer, um retrato da transformao do Brasil diante do desafio de encarar a homossexualidade como uma orientao sexual  to somente isso. Na adolescncia, levado pela famlia, Toni tentou todo tipo de "cura": mdicos, chs, novenas. "Muitas vezes pensei em suicdio", conta ele. "Vivemos uma enorme mudana cultural e avanaremos mais ainda. A lgica que sustenta a igualdade de direitos  universal", acredita. "No existe segmento social que tenha passado por uma mudana to significativa em to pouco tempo", observa a advogada gacha Maria Berenice Dias, presidente da Comisso da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). 
     H muitas explicaes e hipteses para os avanos dos ltimos vinte anos, mas poucas tm tanta fora quanto o advento da aids (leia a reportagem sobre portadores da sndrome e suas dificuldades na pg. 228). Antes da epidemia que, no primeiro momento, fez a maioria de suas vtimas entre os gays, a militncia homossexual era dispersa e frgil. Em 1993, segundo Toni Reis, que fundou a ONG curitibana Grupo Dignidade, havia cerca de quinze grupos militantes pr-direitos dos gays; hoje so mais de 300. "Diante da ameaa da aids e do preconceito, o ativismo LGBT ganhou fora e a organizao poltica do movimento se adensou", analisa o antroplogo carioca Srgio Carrara, professor do Instituto de Medicina Social da UERJ e pesquisador do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam). Mobilizar-se era uma questo de sobrevivncia, e foi essa mobilizao que acabou por garantir a oferta gratuita do coquetel para as vtimas da doena no fim dos anos 1990. Em 1997, a primeira Parada  Gay realizada em So Paulo deu uma face alegre e colorida  militncia, reunindo cerca de 2000 pessoas, segundo a Polcia Militar. Em junho passado, segundo o Datafolha, a 17 edio da parada levou para a Avenida Paulista 220.000 pessoas, embora os organizadores afirmem ter havido mais de 5 milhes de manifestantes. 
     Quando a novela exibida no horrio de maior audincia da TV brasileira apresenta trs importantes personagens gays  o vilo Flix, vivido por Mateus Solano, e o casal Eron (Marcello Antony) e Niko (Thiago Fragoso), de Amor  Vida ,  de suspeitar que uma mudana poderosa esteja em curso. Da mesma forma, cada vez que uma celebridade se declara gay, como fez a cantora Daniela Mercury em abril passado, h um impacto direto na aceitao da sociedade. "A exposio na mdia amplia o acesso do pblico a informaes sobre a orientao sexual", aponta o antroplogo Carrara. "A homossexualidade torna-se uma referncia mais cotidiana, menos estigmatizada.'' A percepo da homossexualidade alheia  um dos destaques da pesquisa VEJA/Ipsos. Em 1993, apenas 50% dos entrevistados admitiram conviver com homossexuais no dia a dia; em 2013, esse nmero subiu para 78%. "Hoje os gays no se escondem mais. Isso criou condies para uma convivncia mais tolerante com a diversidade", acredita o psiclogo Klecius Borges, de So Paulo, que se especializou no atendimento a gays. " como se a sociedade estivesse saindo de um grande armrio coletivo." 
     Abrir um armrio que est dentro de casa  mais difcil, ressalve-se. Na pesquisa da Ipsos, 60% dos 1000 entrevistados declararam jamais ter pensado que o filho ou a filha poderia ser gay. Uma vez que isso se materializasse, um em cada cinco brasileiros ainda tentaria mudar o quadro, outros 11% buscariam ajuda religiosa e 52% no aceitariam se o filho se casasse com algum do mesmo sexo. "Um pai e uma me que descobrem que o filho  homossexual mergulham num perodo de luto pelo filho htero que perderam", explica a educadora Edith Modesto, de So Paulo. Depois de viver a experincia na pele  seu filho Marcelo, o caula de seis homens,  gay , Edith criou o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), para dar apoio a famlias que se descobrem na mesma situao. Fundado em 1997, o GPH j acolheu cerca de 600 famlias. "Apesar das grandes conquistas dos gays, todos os dias recebo relatos de mes para quem a vida acabou depois dessa descoberta", conta Edith, que, em paralelo, criou um grupo para orientar tambm os filhos, o Projeto Purpurina. 
     Diferentemente do que ocorre com as manifestaes de racismo e de violncia contra a mulher, consideradas crime e punveis com leis prprias, no se tem conseguido aprovar no Congresso leis que protejam os homossexuais de violncia homofbica e lhes assegure o direito de casar-se civilmente e adotar filhos. "Passamos por uma crise de representao poltica", afirma o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), ex-big brother e homossexual assumido, o nico parlamentar eleito com uma plataforma abertamente pr-direitos humanos para os LGBT, sigla para lsbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgneros. "No Brasil, a eleio ainda depende mais da fora da grana, da compra de votos e de currais eleitorais do que do voto consciente em candidatos com os quais se tenha afinidade." 
     Apesar disso, os gays protagonizaram uma grande mudana e obrigaram o Judicirio a caminhar mais depressa que o Legislativo. Em maio de 2011, os ministros do Supremo Tribunal Federal reconheceram a unio estvel homoafetiva amparados pelo artigo da Constituio que probe a discriminao em funo de sexo, raa ou cor. Como, pela lei, toda unio estvel pode ser convertida em casamento, em maio deste ano o Conselho Nacional de Justia, por meio da Resoluo 175, obrigou os cartrios de todo o Brasil a realizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. "No d para esperar que a sociedade amadurea ou se 'acostume' a essa situao para que ela seja legalizada", afirma a advogada Maria Berenice. Em 1993, a pesquisa no levantou a questo do casamento gay. Em 2013, porm, ela  indispensvel  52% dos entrevistados disseram-se favorveis ao casamento em cartrio entre duas pessoas do mesmo sexo. A adoo j estava em pauta em 1993. Quando a pesquisa daquela poca perguntou sobre o assunto, 58% dos entrevistados achavam que um casal de homossexuais no deveria adotar uma criana. Na pesquisa de 2013, esse nmero caiu para 40%. 
     A grande visibilidade alcanada pela comunidade gay exacerbou a violncia. Segundo a Secretaria de Direitos Humanos da Presidncia da Repblica, em 2012 foram reportadas 27 violaes de direitos humanos de carter homofbico  por dia. De 2011 para 2012, o nmero de denncias subiu 166%, de 1159 para 3084. Decano da militncia pelos direitos dos homossexuais, o historiador baiano Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, tem contabilidade prpria da violncia de razes homofbicas: segundo ele, em 2012, 338 homossexuais foram mortos nessa situao, quase um por dia. "Em 1980, contvamos uma morte a cada quinze dias", afirma Mott. Na pesquisa VEJA/Ipsos, 89% dos entrevistados defendem leis mais severas para coibir a violncia contra os homossexuais. No entanto, o PLC 122, projeto de lei que pretende alterar o Cdigo Penal acrescentando a orientao sexual aos crimes de discriminao ou preconceito, est parado na Comisso de Direitos Humanos do Senado Federal. 
 consenso que a luta contra a homofobia tem um palco decisivo: a escola. A ONG E-joverm, que rene jovens homossexuais de Campinas, no interior de So Paulo, e regio, estabeleceu os seis passos para acabar com a homofobia nas escolas; a cartilha define como dever da instituio criar um "ambiente seguro", ter uma poltica de combate ao bullying e incluir material LGBT em sua biblioteca. O pas do futuro, como sempre, depende do presente.  

"PERDI MEU FILHO PARA A HOMOFOBIA"
Alexandre Ivo tinha 14 anos quando desapareceu, na madrugada de 21 de junho de 2010, em So Gonalo (RJ), aps ser tocaiado por trs rapazes num ponto de nibus quando voltava para casa. O corpo, encontrado pela manh num terreno baldio, trazia sinais de tortura e estrangulamento. O crime, segundo a polcia, teve motivaes homofbicas. Ele nunca assumiu para mim sua orientao sexual, mas, qualquer que fosse ela, nada justifica tanta violncia, diz Anglica Ivo, me de Alexandre. Os supostos assassinos respondem ao processo em liberdade. Nos movimentos gays, h uma corrente que deseja batizar o PLC 122, que criminaliza a homofobia, de Lei Alexandre Ivo.

O SOM DAS BALADAS GAYS
Andr Rodrigues, Lucas Plnio, Wil Ber Vulgo, Percy Alves (na foto ao lado) e Wesley Bravo (que no pde comparecer  sesso fotogrfica) se conheceram num show de talentos promovido pela ONG que frequentavam, a E-jovem, em Campinas, e decidiram formar uma banda cover imitando o quinteto ingls One Direction, celebrizado entre os teens por sucessos como What Makes You Beautiful (2011). Escolheram para si o nome Gay Direction, referncia  orientao sexual dos cinco integrantes. Exceto por Andr, que  ator, eles nunca tinham subido num palco. Fizeram o primeiro show em junho de 2012, no aquecimento da Parada Gay de Campinas, e no dia seguinte, no evento em si, j cantaram para um pblico estimado pelos organizadores em 120.000 pessoas. Os meninos seguem juntos e pretendem se profissionalizar. Apresentam-se em festas e baladas gays por caches que variam de 500 a 1000 reais. 

UMA SOCIEDADE MAIS ABERTA
Preconceitos expressos em 1993 aparecem atenuados na enquete atual.

Convivem com homossexuais na vida cotidiana: 1992 - 50%; 2013 - 78%
Mudariam sua conduta com o colega se soubessem que ele  homossexual: 1992 - 56%; 2013 - 19%

Mudariam seu voto caso fosse revelado que seu candidato a uma eleio  homossexual: 1992 - 47%; 2013 - 12% (Entre os evanglicos que responderam  pesquisa 24% trocariam de candidato.

Deixariam de contratar um homossexual para um cargo em sua empresa, mesmo que ele fosse mais qualificado: 1992 - 36%; 2013 - 7%

No concordam que um candidato homossexual seja eleito para a Presidncia da Repblica: 1992 - 56%; 2013 - 21% (No grupo evanglico, essa porcentagem sobe para 37%)

Trocariam de mdico se descobrissem que ele  gay: 1992 - 45%; 2013 - 14%

Trocariam de dentista se descobrissem que ele  gay: 1992 - 50%; 2013 - 11%

Acreditam que a educao recebida pela pessoa determina sua homossexualidade: 1992 - 20%; 2013 - 20%

Acham que um casal homossexual, mesmo vivendo junto h muito tempo, no deve adotar uma criana: 1992 - 58%; 2013 - 40%

Acham que se nasce homossexual: 1992 - 51%; 2013 - 51% (1 em cada 4 entrevistados acha que a homossexualidade  falta de Deus ou de religio)

Acreditam que os homossexuais provocaram o aparecimento da aids: 1992 - 44%; 2013 - 12%

Acreditam que os homossexuais so responsveis pela disseminao da aids no mundo: 1992 - 61%; 2013 - 18% (Entre os entrevistados mais jovens de 18 a 29 anos, s 14% concordam com essa afirmao. 1 em cada 5 entrevistados com mais de 45 anos culpa os gays pelo avano da doena.

Ficariam tristes se tivessem um filho homossexual: 1992 - 79%; 2013 - 37%


15. AUTOMOBILISMO  UMA PROVA DE RISCO

NA PISTA DOS CULPADOS
3 de maio de 1995
Um ano depois do acidente que tirou a vida de Ayrton Senna, tricampeo da Frmula 1, VEJA, em uma reportagem exclusiva, trouxe  tona as razes da morte do piloto. A revista ouviu, durante dez dias, uma dzia de peritos, tcnicos e advogados ligados  investigao oficial das causas da tragdia. Alm disso, teve acesso ao prprio texto do relatrio final, at ento no divulgado. O documento se espalhava por trs volumes e uma pasta e inclua fotos e desenhos sobre o que ocorrera entre a entrada da Williams FW16 de Senna na curva Tamburello do autdromo de mola, na Itlia, e o violento e fatal impacto no muro de concreto do circuito, a 216 quilmetros por hora.

TRECHO "A coluna de direo da Williams-Renault quebrou-se, e o piloto ficou sem nenhum controle sobre sua mquina. Tirou o p do acelerador, brecou em seguida, mas no houve jeito. (...) A coluna de direo partiu-se devido ao trabalho inepto da equipe Williams, responsvel por um remendo grosseiro na pea, que no suportou o esforo ao qual foi submetida. Ao menos em teoria, Senna poderia ter escapado com vida, no fosse a sequncia de fatalidades que se desencadeou a partir da pea mal soldada. Com a violncia da batida, a suspenso dianteira direita quebrou-se. Um dos braos da suspenso, uma haste de metal longa e fina, ainda presa  roda, foi arremessado contra a cabea do piloto, como uma lana, e perfurou seu capacete exatamente no ponto de juno da viseira. Alm do buraco que lhe abriu na altura do superclio, afundando o crebro, o impacto da haste de metal, com a roda junto, provocou fraturas na base do crnio. 
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Desde o acidente que matou Ayrton Senna, em 1994, a segurana dos carros avanou de forma extraordinria, porm seria um erro afirmar que mesmo hoje os pilotos de F1 esto inteiramente seguros.
ALEXANDRE SALVADOR

Eles estavam pilotando a 270 quilmetros por hora em uma banheira de gasolina, sem nem mesmo um cinto de segurana como proteo. Qualquer erro e havia apenas meio metro de grama antes de colidir com as rvores ao redor da pista." A definio dada pelo ento presidente da Federao Internacional de Automobilismo, o ingls Max Mosley, soa exagerada. De fato, a frase possui algumas imprecises, mas reflete a desalentadora sensao de insegurana que pairava sobre o circo da Frmula 1 durante a fatdica temporada de 1994. Embora a morte de Ayrton Senna, depois da violenta batida contra um muro ao final da curva Tamburello, na stima volta do Grande Prmio de San Marino, tenha sido causada por uma improvvel "sequncia de fatalidades", como foi revelado por VEJA, ela no foi a nica tragdia daquele ano. Um dia antes do acidente de Senna, o austraco Roland Ratzenberger j havia morrido depois de se chocar contra um dos muros do circuito de mola. Pode-se dizer que outras mortes s no ocorreram em 1994 por fora do acaso. Tambm em San Marino, Rubens Barrichello teve a sorte de sair apenas com um dos braos fraturado depois que sua Jordan decolou da pista durante os treinos livres. 
     Na corrida seguinte, realizada no principado de Mnaco, foi a vez de o austraco Karl Wendlinger sofrer uma forte pancada contra as barreiras de conteno do circuito. O piloto da Sauber passou semanas internado, em coma induzido, tamanha era a severidade de suas leses na cabea. Chegou-se a um impasse. Os pilotos, mais unidos do que nunca, no aceitariam entrar em uma disputa sem maiores garantias de segurana. Os dirigentes, por sua vez, no queriam mais uma morte transmitida ao vivo para milhes de telespectadores em todo o mundo. Por isso, deu-se incio a uma reviravolta na categoria, que tem prevenido desde ento a ocorrncia de outro acidente fatal envolvendo um piloto de Frmula 1. 
     As mudanas que se sucederam depois da morte de Ayrton Senna ocorreram em pelo menos trs frentes. A primeira delas, mais urgente, foi em relao s pistas. Tanto a FIA quanto a GPDA (a associao de pilotos de grandes prmios, que, depois de dezesseis anos, voltou a funcionar em razo da morte do brasileiro) promoveram a reviso do traado de todos os circuitos que faziam parte do calendrio de provas da Frmula 1. Curvas perigosas ganharam novo desenho, a rea de escape aumentou  o asfalto substituiu as caixas de brita, que pouco ajudavam na desacelerao de um carro desgovernado  e barreiras foram instaladas. Tudo para diminuir a velocidade dos carros. Em 1994, a curva Tamburello, por exemplo, era contornada em sexta marcha, com acelerao mxima, a mais de 300 quilmetros por hora. J no ano seguinte, ela foi modificada radicalmente e transformou-se em uma chicane, bem mais lenta, feita em quarta marcha, a 150 quilmetros por hora  o circuito de mola deixaria de fazer parte do calendrio da Frmula 1 em 2007. "O fim de semana trgico acabou ensinando ao mundo da Frmula 1 muitas coisas", afirma Rubens Barrichello, piloto da categoria entre 1993 e 2011 e recordista em nmero de grandes prmios disputados. "A velocidade, que sempre foi a beleza desse esporte,  tambm a sua arma mais perigosa." 
     Os outros dois focos de preocupao  e que sofreram as transformaes mais radicais, diga-se  foram o carro e os equipamentos de segurana do piloto. Em 1994, o cockpit j era um composto de fibra de carbono, material ultrarresistente  fora provocada pela batida em alta velocidade. Desde 1985, o invlucro era submetido a testes prvios, os chamados crash tests, que aferiam a rigidez da estrutura que deveria proteger o piloto. No acidente de Senna, essa parte funcionou adequadamente. Disse a reportagem de VEJA, em 1995: "Fora a srie de traumatismos cranianos provocados pelo brao da suspenso, nenhum outro rgo vital do piloto apresentava ferimentos graves". Mesmo resistindo a foras descomunais, o carro era rudimentar em relao  proteo da cabea do piloto. Antes do acidente de Senna, todo o capacete e parte dos ombros do piloto ficavam completamente expostos. J a partir da temporada de 1996 foi exigido que a lateral do carro subisse 10 centmetros  hoje o regulamento define o desenho exato da rea de proteo da cabea (veja o quadro ao lado). Alm disso, o espao em volta do capacete foi preenchido por suportes feitos de espuma, os chamados head rests. 
     Nenhuma dessas estruturas, porm, conseguia conter a sbita movimentao da cabea para a frente, em caso de uma batida ou freada forte. Em 1995, o finlands Mika Hakkinen fraturou o crnio ao bater a cabea no volante, aps um acidente no circuito de Adelaide. A partir da teve incio uma srie de estudos para conter esse movimento brusco. Vrias tecnologias foram pensadas, de airbags a cobertura total do cockpit, similar  dos avies-caa. Mas a soluo adotada foi bem mais simples. O piloto passou a usar um dispositivo acoplado a seu capacete que reduzia significativamente a fora em caso de uma desacelerao brusca. O Hans (sigla em ingls para head and neck support) foi introduzido na Frmula 1 em 2001 e se tornou item obrigatrio em 2003. Alm disso, a estrutura do capacete foi reforada. A fibra de vidro reforada por kevlar (usado nos coletes  prova de bala) foi substituda por fibra de carbono, o mesmo material do cockpit. Aps o acidente de Felipe Massa, atingido na cabea por uma mola que se desprendeu de outro carro no GP da Hungria de 2009, uma placa de zylon, polmero que tem quase o dobro da resistncia do kevlar, foi introduzida acima da viseira do capacete. 
     Mesmo com todos os avanos, no se pode considerar a Frmula 1 um esporte totalmente livre de riscos. Basta olhar para o passado. Dezenove anos atrs, havia a falsa concepo de que vivamos a poca mais segura da histria da categoria  afinal, a ltima morte de um piloto, o italiano Elio de Angelis, durante uma sesso de testes, tinha ocorrido em 1986. Em reportagem concluda dois dias antes do acidente fatal de Senna, VEJA relatou essa suposta segurana ao descrever as condies do acidente espetacular de Rubens Barrichello em mola: "Hoje, tudo mudou. A tecnologia que salvou Barrichello  to eficiente quanto a que produz as novas geraes de motores da Frmula 1. Os carros atuais, alm de desenhados para correr cada vez mais, so tambm cada vez mais seguros". Basta uma tragdia para mudar o discurso. 

DUAS DCADAS DE MUDANAS
Depois da morte de Ayrton Senna, nenhum outro piloto perdeu a vida guiando um carro de Frmula 1. Alm da mudana no traado dos circuitos, o carro e os equipamentos de segurana sofreram alteraes drsticas.

Hans: o salva-vidas da coluna
Como era em 1994 - No existia nenhuma proteo para a coluna ou o pescoo do piloto
Como  hoje - O Hans (sigla em ingls para head and neck support) reduz em 44% o movimento de cabea e diminui em 87% a fora aplicada ao pescoo em caso de acidente

Capacete mais resistente
Como era em 1994 - Utilizava-se fibra de vidro, reforada com kevlar (o material dos coletes  prova de bala) e apenas uma camada de fibra de carbono
Como  hoje - A estrutura  basicamente do mesmo material do cockpit: mltiplas camadas de fibra de carbono, o que garante maior robustez ao acessrio. H ainda um reforo de zylon na regio da testa do piloto

Lateral do cockpit mais alta
Como era em 1994 - A cabea e parte dos ombros ficavam para fora do cockpit
Como  hoje - O atual regulamento estipula uma lateral mais alta, que protege praticamente dois teros do capacete e todo o tronco do piloto

Rodas
Como eram em 1994 - No havia nenhuma estrutura para manter as rodas presas ao carro em caso de acidente
Como so hoje - Em caso de batida, cintas duplas de kevlar evitam que as rodas se desprendam do chassi e viajem desgovernadas pela pista

Crash test mais rigoroso
Como era em 1994 - O cockpit j era feito de fibra de carbono na poca de Senna, o que garantiu que o piloto brasileiro no sofresse nenhuma fratura ou leso no tronco ou nos membros, apesar da trgica morte
Como  hoje - As velocidades a que so submetidos os carros nos testes de impacto aumentaram 36%. Tambm foram introduzidos testes para as laterais e para a parte traseira do carro 

Fontes: os pilotos Rubens Barrichello, Luciano Surti e Lucas di Grassi, FIA e o livro The Science of Safety: The Battle against Unacceptable Risk in Motor Racing


16. CINCIA  A CLONAGEM NO ESPELHO
O nascimento da ovelha Dolly, em 1997, o primeiro mamfero adulto concebido artificial e assexuadamente, trouxe  tona uma discusso tica: o prximo passo seria clonar humanos? Alarme falso. E vale lembrar: a natureza de um ser vivo no depende s de seus genes .
FERNANDO REINACH

     Em 27 de fevereiro de 1997, o mundo acordou assustado com a notcia do nascimento de uma ovelha. O anncio foi publicado na revista Nature: "Descendente vivel de mamfero derivado de clula fetal e adulta" ("Viable offspring derived from fetal and adult mammalian cells "). 
     Era uma ovelhinha normal, mas tambm o primeiro mamfero concebido sem a reproduo sexual. Cientistas ingleses extraram o ncleo de uma clula da glndula mamaria de uma ovelha, inseriram esse ncleo em um vulo de outra ovelha e implantaram o resultado no tero de uma terceira ovelha. Aps a gestao, nasceu Dolly. 
     A fecundao, na qual genes do pai e da me se combinam, havia sido evitada. Dolly nunca seria rf pois nunca tivera pai nem me. Ela possua o genoma da ovelha que havia doado o ncleo de uma de suas clulas. 
     Esse experimento, um feito tecnolgico complexo, e sem dvida uma descoberta cientfica importante, poderia ter passado despercebido. 
     O que despertou ateno foi o editorial publicado na mesma revista, cujo ttulo utilizava pela primeira vez a palavra "clone" no contexto do nascimento de Dolly  "Pego cochilando pelos clones" ("Caugln napping by clones"). No texto, os editores relatavam que, pouco antes de publicarem o artigo, um pesquisador de Harvard havia solicitado que o trabalho no fosse divulgado. Ele estava preocupado com as implicaes ticas da nova tecnologia. Alegava que mais cedo ou mais tarde a possibilidade de "clonar" seres vivos levaria "estrangeiros" a usar ilegalmente a tecnologia para "clonar" seres humanos. Quais seriam as implicaes ticas dessa possibilidade? No seria melhor manter a descoberta em segredo? 
     Clone lembra cpia, coisa idntica. Escovas de dentes so todas cpias de um nico modelo, o mesmo ocorre com nossos carros e com qualquer produto industrial. Com a dificuldade em explicar a origem de um ser sem pai nem me, descendente de um pedao de mama,  fcil entender por que a palavra clone foi adotada pela imprensa mundial. Na edio de VEJA de 5 de marco de 1997 o ttulo da reportagem no foi diferente: "Dolly, a revoluo dos clones". A pergunta com a qual os habitantes do planeta Terra despertaram naquele dia foi uma verso do primeiro pensamento que me ocorreu: "No futuro teremos clones de Pel nos campos de futebol? A Fifa vai deixar?". 
     A palavra clone, com seu sentido de cpia idntica, de tal modo dominou os artigos na mdia que a realidade biolgica foi muito pouco discutida nos primeiros dias. Fazia dcadas que sabamos que um ser vivo  o produto de seu genoma (os genes) e do meio ambiente em que se desenvolveu.  a interao dos genes com o meio ambiente que produz as caractersticas de um ser vivo.  como em um jogo de pquer. O resultado no depende somente das cartas recebidas, mas do jogador que as recebe.  a interao das cartas com o jogador que produz as caractersticas de uma jogada. A mesma pessoa, com os mesmos genes, se praticar exerccios pode se tornar um atleta razovel; porm, se passar a vida na frente da televiso comendo salgadinhos, seguramente no vai ter uma barriga tanquinho. 
     Existem pares de seres humanos com exatamente os mesmos genes em todas as cidades do mundo. So os gmeos univitelinos. Apesar de eles serem muito parecidos, todos sabemos que no so idnticos, e nunca foram chamados de cpias ou clones. Para Dolly ser realmente idntica  ovelha que possui seu genoma, ela teria no s de apresentar os mesmos genes, mas ter sido submetida s mesmas experincias durante toda a sua vida. Uma impossibilidade. De igual modo, mesmo se consegussemos clonar um Bob Dylan, por exemplo,  impossvel saber se o resultado seria uma cpia to criativa quanto o cantor e compositor, apesar de ele mesmo nunca ter sido um nico, dada a multiplicidade de suas obras. Essa utopia do igual, do tal e qual, virou lugar-comum. A expresso clone, que foi parar at em novela, ganhou popularidade, parece tudo explicar mas, a rigor, pouco explica. 
     Outro fato que passou quase despercebido  que o procedimento era difcil e sujeito a muitos erros. Foram 277 tentativas para obter uma ovelha saudvel. Muitas morreram durante a gestao, eram malformadas ou simplesmente no se desenvolveram. Tudo indicava que seria uma tecnologia difcil de ser popularizada. 
     O alvoroo teve seu lado positivo. A maioria dos pases concordou em tornar ilegal a clonagem de seres humanos. Que se saiba, at hoje nenhum ser humano foi clonado. 
     O mesmo no se pode dizer com relao a outros animais. Antes das ovelhas, um sapo (1958), uma carpa (1963) e um camundongo (1986) haviam sido clonados. Depois de Dolly foram clonados macacos (2000), um gaur, o primeiro animal em extino (2001), vacas (2001), ratos (2003), mulas (2003), cavalos (2003), gatos (2005), bfalos e camelos (2009), e cabras (2012). Isso demonstra de forma cabal que a tecnologia  slida e relativamente fcil de ser reproduzida. Sem dvida, a clonagem de um ser humano  possvel. 
     Desde 1997 surgiram muitas empresas que oferecem servios de clonagem. a maioria explorando o amor dos seres humanos por seus animais de estimao. Quase todas faliram, pois os preos que cobram so altos  e, como se afirma no site de uma delas,  impossvel garantir que o clone v ter a mesma personalidade do original. Essas empresas tiveram de admitir que a natureza de um ser vivo no depende somente de seus genes. De que adianta clonar um co que me adorava se o clone me morde? Hoje, os nicos que utilizam regularmente a clonagem de animais so os criadores de cavalos e de gado de elite. 
     Os criadores de cavalos ainda discutem se um clone pode ser registrado em seus livros. Mas faz alguns anos que o rgo de segurana alimentar dos Estados Unidos certificou a segurana do consumo de animais clonados como alimento. No Brasil, clones de vacas e bois so rotina e talvez voc, caro leitor, j tenha devorado em um churrasco uma picanha do filho de algum dos touros clonados que habitam as centrais de inseminao artificial. 
 provvel que os clones jamais cheguem aos gramados ou s quadras de vlei. A revoluo dos clones no foi o que se esperava, e talvez nem sequer tenha sido uma revoluo, mas hoje os clones so uma realidade. 
     A ovelha 6LL3, chamada carinhosamente de Dolly, nos deixou em 14 de fevereiro de 2003. Famosa, escapou do frigorifico, mas foi sacrificada pelos cientistas para evitar o sofrimento provocado pela artrite e por uma doena pulmonar. Deixou seis filhos: Bonnie, Sally, Rosie, Lucy, Darcy e Cotton. Embalsamada, ela pode ser visitada no Museu Nacional da Esccia, em Edimburgo. 
Fernando Reinach  bilogo e autor de A Longa Marcha dos Grilos Canibais
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MQUINA DE COPIAR
5 de maro de 1997
Em uma reportagem de oito pginas, VEJA se debruou sobre um dos fatos de maior impacto da histria da cincia: o nascimento da ovelha escocesa Dolly, o primeiro mamfero adulto concebido de forma assexuada. No texto, a revista explicou como se chegou ao famoso clone; elencou os eventuais usos do extraordinrio feito, s alcanado aps 277 tentativas; e, sobretudo, discutiu um ponto crucial: as implicaes ticas trazidas por aquela revoluo cientfica. Especialmente, diante da possibilidade de clonar seres humanos.

TRECHO "Ela tem apenas origem, uma origem que no  divina.  humana. Dolly  o cordeiro dos homens. Mais exatamente,  o cordeiro de Ian Wilmut, 52 anos, embriologista do Instituto Roslin, instituio de pesquisa agropecuria de Edimburgo, capital da Esccia, que at ento vivia num tranquilo anonimato. Dolly  o que a cincia chama de clone, palavra de origem grega que significa broto. Clone  a cpia idntica de um outro ser vivo produzida artificial e assexuadamente. Como teve origem na clula da mama de sua me, a ovelha recebeu o seu nome em homenagem a Dolly Parton, a cantora caipira americana de seios enormes. Ela tem a compleio simptica da sua raa, a finn-dorset: focinho rosado, dcil e encantadoramente desajeitada. Por trs dessa aparente normalidade, esconde-se uma perturbadora revoluo cientfica."


17. MEDICINA  ORGULHO AZUL

A SATISFAO DO DESEJO
1 de abril de 1998
O acompanhamento rigoroso das notcias internacionais sobre novos medicamentos permitiu a VEJA sair na frente em um assunto de indiscutvel interesse para a populao masculina (e feminina tambm): o lanamento do Viagra, poderoso remdio contra a impotncia. Rumores de que a FDA, a agncia para o controle de medicamentos dos EUA, liberaria sua comercializao vinham circulando desde a semana que antecedeu o anncio oficial da aprovao do remdio. Este veio numa sexta-feira; no sbado, VEJA estava nas bancas com uma esclarecedora reportagem de capa a respeito do assunto  um ms antes da Time e dois antes da Newsweek.

TRECHO 
" uma grande notcia para milhes de homens. E para muitas mulheres tambm. Pela primeira vez, um dos mais angustiantes, constrangedores e aterrorizantes problemas masculinos, a impotncia, poder ser tratado de forma to simples quanto curar a dor de cabea com uma aspirina. Com a aprovao, na sexta-feira passada, do medicamento Viagra, o nico quesito para uma deliciosa noite de sexo passa a ser o desejo pela mulher amada. To bom quanto nos tempos de Ado. A maa, agora,  uma drageazinha azul, com a forma de um losango, a ser ingerida junto com um gole d'gua uma hora antes do ato sexual."
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Lanado h quinze anos, o Viagra tornou possvel a milhes de homens livrar-se do fantasma da impotncia. Os avanos conquistados pelo medicamento permitem comparar seu impacto  chegada, na dcada de 60, da plula anticoncepcional.
NATALIA CUMINALE

     O lanamento do Viagra, em 1998, alforriou o sexo masculino de um de seus mais angustiantes problemas: a impotncia. A drageazinha azul possibilitou a milhes de homens (e mulheres tambm) recuperar o prazer do sexo, tirando da cama o constrangimento. Foi um espetacular avano da medicina, mas sobretudo comportamental. At ento, os tratamentos para a disfuno ertil eram extremamente agressivos e to incmodos quanto a dificuldade de  manter uma ereo  injees, bombas a vcuo e supositrios aplicados diretamente no pnis, momentos antes do encontro amoroso. Os homens perderam a vergonha de ir ao mdico reclamar a fora sexual perdida. "O medicamento modificou a postura sexual masculina nos anos 2000 de modo semelhante ao que fez a plula anticoncepcional na dcada de 60 com as mulheres", diz Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (USP), aproximando o alvio dos homens diante do fantasma da impotncia  liberdade feminina conquistada a partir do surgimento daquele eficiente contraceptivo. 
     Naturalmente, no se viram manifestaes masculinas nas ruas como as que eram promovidas por inflamadas mulheres 45 anos atrs  como o clebre protesto de 7 de setembro de 1968, conhecido como o da "queima de sutis" (que, na verdade, nunca foram queimados), contra o concurso de Miss Amrica, considerado opressivo. De qualquer modo, em dez anos, mais de 30 milhes de homens em 120 pases receberam a prescrio do Viagra. No Brasil, estima-se que catorze comprimidos do remdio sejam comercializados por minuto. So 840 por hora, 20.160 por dia. 
     O impacto do Viagra foi alm da alcova. "A sade sexual do homem passou a ser mais estudada", diz o urologista Celso Gromatzky, do Hospital Srio-Libans, em So Paulo. As poucas pesquisas sobre o assunto concentravam-se, principalmente, na rea de psiquiatria e urologia. At a dcada de 60, acreditava-se que a impotncia fosse um problema puramente psicolgico. Hoje, j se sabe que as causas exclusivamente psquicas correspondem a apenas 30% dos casos; em metade dos homens que tm o distrbio, ele surge da combinao entre causas orgnicas e psicolgicas. "Depois do Viagra, cardiologistas, clnicos gerais, geriatras, endocrinologistas e mdicos que atuavam em pesquisa bsica passaram a se interessar por vrios temas relacionados  disfuno ertil", relata Gromatzky. A chegada da plula azul permitiu um crescimento expressivo no nmero de estudos que associam a frequncia da atividade sexual, a qualidade e o interesse em sexo com a vida saudvel entre os homens de meia-idade e idosos. Foi possvel tambm considerar que a impotncia talvez seja fator de risco para o surgimento de doenas do corao. Isso porque, quando h uma leso no endotlio, tecido que reveste tanto o corao quanto o pnis, ela se manifesta primeiramente no rgo sexual masculino. Os sintomas cardacos aparecem s alguns anos depois. Ou seja, um homem que vai ao consultrio atrs de um comprimido azul tem sua sade investigada como um todo. A procura pelo Viagra pode facilitar o diagnstico de depresso, ansiedade, cardiopatia, insuficincia renal e heptica e tumores de prstata, entre outros problemas de sade. 
     Depois do Viagra, surgiram outros compostos conhecidos como inibidores da fosfodiesterase (PDE 5). Eles bloqueiam essa enzima, relaxando a musculatura do pnis e provocando aumento do fluxo sanguneo para o rgo, o que permite a ereo e sua manuteno. A principal diferena entre os medicamentos  a durao de seu efeito. O Cialis, o lder de vendas, lanado em 2003, tem um efeito de at 36 horas  contra as quatro do comprimido azul. Assim, no  preciso tomar o remdio alguns minutos antes da relao sexual  mais uma liberdade alcanada pelo usurio. Metade dos homens com mais de 40 anos reclama de algum grau de disfuno ertil. Deles, 80% encontram alvio com esse tipo de medicamento. 
     O uso do Viagra como remdio contra a impotncia sexual masculina foi algo descoberto sem querer  em um dos mais fascinantes resultados de uma casualidade da medicina. A farmacutica Pfizer estava pesquisando a sildenafila (o princpio ativo do comprimido azul) para combater a hipertenso. Diante do fracasso do composto contra a presso alta, a pesquisa estava prestes a ser abandonada quando os pacientes comearam a relatar um efeito colateral inusitado  erees potentes e naturais. "Foi como a viagem de Colombo. Escolhemos um caminho e erramos a rota sem perceber, mas no final descobrimos um mundo novo", disse em entrevista a VEJA, em novembro de 1998, o qumico ingls Simon Fraser Campbell, lder da equipe de pesquisadores responsvel pelo descobrimento do Viagra. 
     Foi assim que o comprimido azul se tornou um medicamento da classe dos blockbusters  os famosos arrasa-quarteires, que rendem bilhes de dlares ao fabricante. Apesar de ter provocado uma revoluo essencialmente masculina, o remdio fez com que as mulheres tambm "exigissem" dos pesquisadores solues prticas para elas  um "Viagra feminino" , alm de ter alterado a dinmica de relacionamentos adormecidos. "Casamentos de mais de trinta anos que estavam desgastados puderam recuperar sua qualidade", diz Gromatzky. H quem diga que o Viagra tambm serviu para destru-los, ao proporcionar aos homens o retorno a uma intensa vida sexual. Gromatzky rebate: "Na verdade, o que ele fez foi deixar mais evidentes os problemas conjugais j existentes". Afinal, o Viagra no funciona sem o arrebatamento do desejo, este que no tem remdio. 


18. AMBIENTE  A CINCIA TEM A VERDADE
A TERRA VIROU
UM FORNO
21 de junho de 2006
Qual  o impacto do aquecimento global no modo de vida da humanidade? Essa indagao norteou a reportagem de VEJA h sete anos. A revista mostrou quo preocupante  o fenmeno, que derrete o rtico, aumenta a incidncia de desastres naturais, faz subir o nvel do mar e mata centenas de milhares de pessoas ao ano por causa de secas, inundaes e outros fatores relacionados diretamente  elevao de temperatura no planeta. Diante da inevitabilidade do aquecimento, a questo levantada por cientistas e ambientalistas  "como se preparar e se adaptar  vida em um planeta bem mais quente". 

TRECHO "De l para c, ambientalistas e governos debateram, quase sempre aos berros, questes que lhes pareciam bsicas. Primeiro, o grau de responsabilidade da ao humana. Segundo, se os efeitos das mudanas no clima da Terra so iminentes. A terceira questo  o que pode ser feito para impedir que o problema se agrave. O debate, nos termos descritos acima, est morto e enterrado. As pesquisas convergiram, alm do benefcio da dvida, para a constatao de que nenhuma influncia da natureza poderia explicar aumento to repentino da temperatura planetria. At os mais clicos comungam agora da ideia apavorante de que a crise ambiental  real e seus efeitos, imediatos. O que divide os especialistas no  mais se o aquecimento global se abater sobre a natureza daqui a vinte ou trinta anos, mas como se pode escapar da armadilha que criamos para ns mesmos nesta esfera azul, plida e frgil, que ocupa a terceira rbita em torno do Sol." 
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Mesmo que os dados superestimados por pesquisadores de m-f sejam danosos, ao menos a humanidade ter reagido contra algo inquestionvel: os danos do aquecimento global.
FILIPE VILICIC

DEGELO - Em 10.000 anos, a ao humana, como a agricultura e a indstria, fez a temperatura subir 5 graus. Um dos efeitos  o derretimento do rtico: desde 1980, diminuiu em 30% a superfcie congelada da regio, mesmo durante o outono e o inverno.

     Poucos temas ganharam tanta amplitude nos ltimos 45 anos quanto o ambientalismo. Dentro dele, nada conquistou mais notoriedade que a discusso ao redor do aquecimento global. No era assunto, a rigor, at 1972, quando foi cunhada a expresso "desenvolvimento sustentvel". A partir dali, deu-se uma mudana extraordinria nos humores da humanidade. Nos anos 1990 e 2000, tornou-se sinnimo de bom comportamento adotar atitudes verdes, em especial as que visam a combater o aquecimento. Pessoas trocaram carros movidos a gasolina pelos eltricos. Governos apostaram em medidas para diminuir a emisso de gs carbnico (CO2). No incio deste ano, a Unio Europeia anunciou que, para reduzir em 80% a emisso de CO2, deve investir 20% do oramento do grupo em mudanas estruturais. A precauo tem motivo: evitar uma elevao de 2 graus na temperatura mundial em 100 anos, o que colocaria a Terra  beira de um armagedon.  luz da cincia, o aquecimento global se tornou incontestvel. Aes inteligentes no s combatem o aumento de temperatura como ajudam a despoluir o ar, preservar espcies animais e recuperar reas desflorestadas. Ser tachado de "verde" virou um elogio. 
     A elevao de temperatura ocorreria naturalmente, respeitando ciclos de altos e baixos que ocorrem na Terra independentemente da interferncia do homem. H 2,6 milhes de anos, causas naturais deram incio a uma Era do Gelo cujos resqucios ainda so sentidos. A temperatura tem subido porque os efeitos desse perodo frio esto sumindo de vez. Mas a atividade humana intensificou o ritmo de aquecimento a um patamar preocupante. Nos ltimos 10.000 anos, a temperatura do planeta aumentou 5 graus. Antes da Primeira Revoluo Industrial, a vil era a agricultura. Desmatar florestas provoca a emisso de CO2. O gs, que permanece ao menos 100 anos na atmosfera retendo o calor emitido pelo Sol, hoje contribui com 60% do efeito estufa. Com o crescimento da indstria, o cenrio piorou. Desde a Revoluo Industrial do sculo XVIII, cresceu em 30% a concentrao de CO2 na atmosfera. Nos ltimos 150 anos, o acrscimo na temperatura foi de 1 grau. As consequncias so terrveis. Por no estarem adaptadas ao clima quente, 1700 espcies de animais tm migrado em direo ao norte, mais frio, a um ritmo de 6 quilmetros ao ano. Desde 1979, o volume de gelo no rtico no vero caiu 80% (e, no inverno, 30%), o que pe em risco a sobrevivncia de espcies como o urso-polar. Se continuarem nesse ritmo, o aquecimento e a consequente destruio de habitais levaro  extino de uma em cada dez espcies de plantas e animais at 2050. 
     Nesses 45 anos, porm, a luta contra o aquecimento virou embate poltico, ancorado em artimanhas irresponsveis. A principal delas foi um episdio apelidado de "climagate", referncia a Watergate, escndalo que derrubou o presidente americano Richard Nixon. No "climagate", que estourou em 2009, foram revelados e-mails trocados entre cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanas Climticas (IPCC), rgo da ONU. As correspondncias mostram que, ao redigirem os relatrios do IPCC, os pesquisadores exageraram nos nmeros que confirmavam o aumento de temperatura e nas consequncias negativas para o planeta. O objetivo era impactar o pblico e atrair investimentos para pesquisas. 
     Depois da armao, os pesquisadores que batalham contra o aquecimento caram em descrdito. Se h dez anos sete em cada dez cientistas acreditavam nos dados do IPCC, hoje esse nmero caiu para trs em dez. O rgo  tem um duro trabalho pela frente: recuperar sua imagem. A soluo foi retomai'  preciso do mtodo cientfico, e no existe razo fora dele. No novo relatrio do IPCC, cuja primeira parte ser divulgada nesta semana, fica claro o esforo em checai' dados e evitar manipulao. Como efeito, houve mudanas nos prognsticos. Se antes se apostava em uma elevao de 2 graus at o prximo sculo, agora o nmero foi revisto para 1,6 grau. Passaram a ser consideradas na conta causas naturais, como o perodo de alta atividade do Sol, iniciado nos ltimos anos e que afeta o clima terrestre. "Sempre tivemos dados corretos que apontam para a elevao de temperatura", diz o climatologista ingls Nicholas Lewis, que se voltou contra o IPCC aps o "climagate". "A manipulao por interesses polticos queima nosso trabalho. Voltai'  raiz da pesquisa cientfica auxilia no combate aos reais efeitos da ao humana contra a natureza." 
     Para o dinamarqus Bjorn Lomborg, autor do livro Cool It  Muita Calma Nessa Hora!, o fim da manipulao  essencialmente a que os pases comecem a adotar as medidas necessrias para aliviar o peso da atividade do homem no aquecimento. "Nmeros coletados com preciso ajudam a combater os verdadeiros malefcios, que vo alm do que  registrado no termmetro", disse ele a VEJA. Segundo uma pesquisa da Universidade da Califrnia, em Berkeley, cada 0,5 grau de aumento tem como desdobramento uma elevao de 7% na quantidade de conflitos violentos entre grupos, resultantes de disputas por reas protegidas da elevao de temperatura. As regies mais afetadas pelo aquecimento esto prximas aos polos: em julho do ano passado, 97% da superfcie de gelo da Groenlndia derreteu no vero, um recorde. Animais que dependem da superfcie congelada, como a raposa-do-rtico, podem ser extintos. "Atitudes desmedidas prejudicam o planeta", completa Lomborg. "Mas dados enganosos nos levam a concentrar esforos em problemas inexistentes." 

OS PROFETAS DO APOCALIPSE
A discusso em torno do aquecimento global fez surgir lderes que assumiram a tarefa de organizar as ideias de como combater a elevao da temperatura e preparar a humanidade para viver em um planeta mais quente. Suas previses nem sempre se concretizaram, mas isso no  um descrdito: elas serviram para que pases criassem medidas de preveno e pessoas mudassem hbitos, resultando na preserva da Terra 

Al Gore,
ex-vice-presidente americano, em seu documentrio Uma Verdade Inconveniente, de 2006.
A previso: "Com o aumento da temperatura do rtico, a cobertura de gelo vai derreter. Essa ser uma terrvel notcia para os ursos-polares".
O que j ocorreu: desde 1979, o volume de gelo no rtico diminuiu 80% no vero e 30% no inverno. A mdio prazo, correm risco animais como o urso-polar e a raposa-do-rtico.

Rajendra Pachauri 
chefe do IPCC, rgo da ONU que monitora mudanas climticas, em fevereiro deste ano.
A previso: "O clima muda por fatores naturais e pelo impacto das aes humanas. Nos ltimos cinco ou dez anos, tivemos uma estabilidade, mas isso no descarta o aumento contnuo visto antes"
O que j ocorreu: a elevao da temperatura estacionou desde 2008, mas a previso  que volte a subir. Nos ltimos 150 anos, o aumento foi de 1 grau, consequncia da combinao da emisso recorde de CO2 pelo homem e fatores naturais, como a maior atividade solar.

Michael Oppenheimer, ambientalista, no livro Dead Heat, de 1990
A previso: "Entre 1993 e 1996, haver ondas de calor no sudoeste dos Estados Unidos. Uma onda duradoura de 38 graus vai atingir cidades como Jacksonville e Nova Orleans"
O que j ocorreu: ele chegou perto. A mdia de temperatura no ms mais quente na cidade de Nova Orleans foi de 34 graus e, em Jacksonville, de 33 graus.

Daniel Moynihan, conselheiro do presidente americano Richard Nixon, em 1969
A previso: "Est muito claro que a concentrao de CO2 na atmosfera vai subir 25% at 2000. Isso aumentar a temperatura mdia da Terra em 13 graus, o que far o nvel dos oceanos subir 3 metros. Adeus, Nova York. Adeus, Washington".
O que j ocorreu: em 1969, faltavam recursos para realizar a previso com preciso, mas Moynihan foi um dos primeiros a tocar no assunto. Desde ento, a concentrao de CO2 aumentou 13% e a temperatura subiu 0,5 grau. Felizmente, est tudo bem com Nova York e Washington.

COM REPORTAGEM DEVICTOR CAPUTO E RAQUEL BEER


